A violência obstetrícia em debate no Brasil

Enviada em 25/11/2020

Após anos despercebida, a violência obstétrica ocupa o debate de diversos segmentos da sociedade, desde especialistas a jovens feministas. Afinal, a recorrência do problema não é escamoteada por uma geração cada vez mais politizada. Simplesmente, para se entender o problema é preciso analisá-lo sob a ótica do machismo e da saúde : um traço entre passado e presente.

Primeiramente, é evidente que a violência obstétrica é fruto do machismo. Em outras palavras, não somente o fato de as vítimas serem mulheres justifica a afirmação, mas também evidências menos empíricas corroboram-na. Baseado nisso, um olhar atento às anatomias feminina e masculina é suficiente para se perceber a abundância de nomenclaturas que permeiam o sistema reprodutor mulheril. Por conseguinte, já que os nomes são fruto da ação humana, cujo sistema médico foi, historicamente, ocupado por homens, conclui-se que uma abundância deu-se por um consenso médico machista, tido o corpo masculino como universal. Finalmente, coube ao feminino, pela excentricidade, o escrutínio investigativo. Entretanto, esmiuçar o passado não basta, uma vez que o presente é quem mais impacta o cotidiano.

Vale ressaltar que a persistência do problema no contemporâneo é um grave problema de saúde, mais especificamente, nos valores a ela inerentes. Mais do que isso, pode-se afirmar que a saúde perdeu o lado humano tão valorado no juramento de Hipócrates. Por exemplo, a cesárea é usada sem limitações. Em perspectiva, o pensamento de que há poucos anos as parteiras ainda eram a realidade de muitas puérperas faz questionar o processo cirúrgico pelo egoísta viés médico da praticidade. Consequentemente, um parto como tal omite os nove meses de empecilhos e, sobretudo, de construção afetiva entre mãe e filho. Ademais, os cortes do bisturi, sabidamente, trazem dores e cicatrizes que delongam por toda a vida : uma violência. Em síntese, os obstetras devem recuperar o lado humano, o qual apenas junto da ciência constitui a Obstetrícia como um segmento da Medicina.

Portanto, à Medicina Obstétrica acumularam-se décadas de machismo que culminaram em uma Ciência privada de humanidade. Indubitavelmente, a violência abordada deve ser pelejada por meio da reformulação dos cursos medicinais, como o acréscimo de matérias que abordem o machismo,  pelas autoridades médicas e educacionais para que os profissionais tornem-se mais humanos.