A violência obstetrícia em debate no Brasil

Enviada em 09/12/2020

Segundo o juramento de Hipócrates, os médicos deveriam respeitar a vida humana e os seus direitos, independente das crenças, cores e hábitos, usando seus conhecimentos para ajudar e confortar as pessoas. Entretanto, há ações que se mostram contrárias a isso, como a violência obstétrica, na qual as mulheres perdem a soberania de seus próprios corpos, acabando com o sonho de ser mãe, devido à falta de empatia dos profissionais da saúde.

Primeiramente, é importante destacar o trágico paradoxo existente na sociedade brasileira, a qual defende o fim da mutilação genital ocorrida em outros países, como alguns do Oriente Médio, baseada em religiões e na aceitação social. No entanto, fecha os olhos para as mutilações que acontecem no próprio país, como a episiotomia, na maioria dos casos desnecessária e sem o consentimento da mulher. Isso pode ser observado no projeto da fotógrafa Carla Raiter, a qual mostra as marcas deixadas por esse tipo de violência e estimula uma reflexão sobre as condições do nascimento, visto que devido à violência e aos tabus que a torna invisível, muitas mulheres vivem traumatizadas, possuem cicatrizes ou, até mesmo, perderam o bebê.

Além disso, a lógica hipercapitalista, como disse Zygmunt Bauman, subverteu o sentimento empático, diminuindo o afeto das relações e aumentando a busca por lucro a qualquer custo. Nesse contexto, a cesárea é cada vez mais imposta, muitas vezes, sem deixar escolha para a mãe, por exemplo, por meio de discursos falsos, como “é muito baixa para ter um parto normal” ou alegando que dói menos, sem, entretanto, explicar que esse tipo de parto pode ser danoso à mulher, devido à cicatrização delicada. Com isso, o trabalho de parto que dura horas, é feito em minutos, sendo possível fazer vários em um único dia, com menos profissionais e menos esforço, diminuindo a atenção necessária a gestante e violando a sua integridade. O que pode ser observado por meio de dados da Organização Mundial da Saúde, os quais mostram que mais de 60% dos partos são cesarianas, porém apenas 15% são indicadas visando à saúde.

Percebe-se, pois, que a violência obstétrica é extremamente danosa para as mulheres, pois deixam marcas físicas e emocionais. Dessa forma, o governo, por meio do Ministério da Saúde, poderia aumentar a fiscalização e o controle dos partos nos hospitais públicos, realizando inspeções, no mínimo quinzenais, para revisar os prontuários, exigindo justificativas detalhadas e provas da necessidade dos procedimentos realizados durante o parto, garantindo a soberania da mulher sobre o seu próprio corpo e a sua saúde. Com isso, seria possível diminuir esse tipo de violência, garantindo, portanto, que os profissionais cumpram a sua promessa de cuidar e respeitar, sempre com empatia.