Abandono de idosos em questão na contemporaneidade

Enviada em 16/01/2021

A obra literária “A Velhice”, escrita por Simone de Beauvoir, retrata as diversas mazelas e necessidades da terceira idade no século XX, tais como exclusão e desassistência social. Analogamente, no prisma hodierno, o inaceitável descuido com os anciãos permanece fazendo parte do cotidiano populacional, imprimindo indivíduos maduros altamente vulneráveis e solitários. Nesse sentido, seja pela cultura de desamparo familiar ou pela ignorância social em gerir a própria renda, a situação dos antigos cunha-se preocupante e, por isso, carece de maiores cuidados.

Previamente, é relevante salientar as raízes da negligência com a terceira idade. À medida que a expectativa de vida social era baixa, até meados de 1.800 - período anterior a Revolução Industrial - o debate acerca da população idosa era incipiente, visto que parte dos civis não ultrapassavam a fase adulta pela pobre urbanização e saneamento. Assim, embora inovações medicinais posteriores tenham possibilitado o aumento da longevidade - como a descoberta da penicilina, por Alexander Fleming - a desatenção cosanguínea continua sendo um entrave cultural para os idosos, repercutindo abandonos, violências psicológicas e agressões físicas. Prova disso são os dados da revista IstoÉ, que revelam 60.939 anciãos desamparados no Brasil. Segundo o filósofo Paulo Freire, no entanto, “se a educação sozinha não transforma a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda”. Desse modo, fazer da escola um espaço de conscientização sobre a importância de acolher os maduros faz-se essencial.

Ademais, o descuido monetário caracteriza um dos principais entraves para uma vitalidade plena na idade superior. De acordo com índices do Banco Mundial, apenas 21% da população realiza economias para o futuro, embora o contingente de idosos aumente a cada ano. Dessa forma, os sistemas de previdência estatais - já insuficientes no atualidade - tendem a deteriorarem-se e não suprirem toda as carências sociais, uma vez que os benefícios farmacológicos continuarão garantindo o envelhecimento das próximas gerações. Segundo o filósofo John Locke, no entanto, é dever do Estado garantir mecanismos para o bem-estar social. Logo, instruir os civis para um cuidado financeiro maior é crucial.

Portanto, ações são indispensáveis para romper com o desamparo dos idosos. Sob essa ótica, instituir aulas de sociologia nos níveis fundamentais de ensino, por meio de uma ementa legislativa feita pelo Congresso Nacional, é mister no intuito de reforçar o cuidado com os idosos. Para isso, as aulas devem tangenciar a instituição social familiar - teorizada por Durkheim. Outrossim, a criação de propagandas que reforcem a necessidade de uma poupança para o futuro, por intermédio de parcerias entre o Poder Executivo Federal e empresas televisivas, é imperioso a fim de diminuir a vulnerabilidade rentária dos anciãos. Assim, a desassistência retratada por Beauvoir deixará de ser verificada.