Abandono de idosos em questão na contemporaneidade
Enviada em 02/02/2021
O conto “Feliz aniversário”, de Clarice Lispector, narra o aniversário de Dona Anita, comemorando seus 89 anos de vida, em família. A matriarca, silenciosa, vê o abandono por parte de seus familiares e a falsidade destes, que forçavam carinhos com a aniversariante, embora torcessem por aquela ser a última reunião de família até seu próximo parabéns. A obra de Clarice apresenta uma realidade atual no Brasil, na qual a chamada terceira idade é fortemente desvalorizada. Nesse sentido, quanto ao abandono de idosos na contemporaneidade, nota-se a configuração de um grave problema, em virtude da visão da sociedade quanto à essa parcela da população e da modernização vigente hoje.
Em concordância com a concepção filosófica de São Tomás de Aquino, todos os indivíduos dentro de uma sociedade democrática detém da mesma importância, bem como dos mesmos direitos e deveres. No entanto, esse pensamento não se faz real na atualidade, tendo em vista que, muitas vezes, os idosos são vistos como descartáveis tanto pelo Estado, quanto pela própria população. A terceira idade porta a imagem de inutilidade, uma vez que podem apresentar insuficiências físicas ou até psicológicas em relação às gerações mais novas, de forma que costumam consumir mais do que produzem, na noção capitalista hoje vigente. Assim, os familiares, tal qual o governo, optam por não arcar com os custos desses indivíduos, culminando na exclusão desse grupo populacional.
Em segundo lugar, verifica-se que, a partir do fenômeno da Globalização, as relações foram ganhando cada vez mais dinamicidade, em virtude da popularização e desenvolvimento do meio digital. Os avanços tecnológicos, de forma geral, não foram acompanhados pela geração de mais idade, de forma que, por não serem inseridos nesse universo online, vêem-se cada vez mais afastados das atividades do mundo moderno. Além disso, cabe ressaltar que não é raro encontrar jovens exibindo condutas desrespeitosas perante os idosos, de forma impaciente e excessiva, que extrapolam os limites da discordância, sendo eles os que possuiriam maior potencial de colaboração e inclusão dos longevos.
É evidante, portanto, que a população mais velha sofre com o descaso e a violência na contemporaneidade. Destarte, é necessário que o Poder Público, na condição de garantidor dos direitos à população, em conjunto com o Ministério da Educação, atue na difusão de pensamentos otimistas quanto à terceira idade, através de atividades e campanhas, de forma que rompa com a mentalidade de inutilidade e obsolescência em relação a estes, contribuindo para uma maior interação de indivíduos de diferentes faixas etárias. Logo, ao contrário de Dona Anita, atingida pelo abandono, será possível melhorar a qualidade de vida da massa mais velha no país.