Abandono de idosos em questão na contemporaneidade
Enviada em 03/02/2021
“Uma das características da cultura é tornar natural o que não é”. Essa afirmação do historiador brasileiro Leandro Karnal pode facilmente ser aplicada ao debate em torno do abandono de idosos na contemporaneidade, já que a tendência coletiva de descaso com esses, faz com que se naturalize uma postura de indiferença com esse quadro. Esse cenário advém da sistemática negligência governamental que não se preocupa com a manutenção de um espaço social digno para com a terceira idade. Nesse sentido, é importante reconhecer que entre os fatores que aprofundam essa realidade, destacam-se o sistema econômico capitalista e a ausência de uma percepção social sobre a atualidade.
Em primeiro plano, torna-se fundamental o entendimento de que a influência do sistema econômico vigente promove uma realidade de indiferença às pessoas que têm uma idade mais avançada. Isso ocorre por causa dos valores da mentalidade capitalista que tendem a julgar o corpo social pela produtividade e lucratividade de suas ações. Consequentemente, observa-se o processo no qual pessoas idosas passam a ser subvalorizadas por não terem uma força de trabalho eficiente. Para entender essa lógica, pode-se mencionar o livro “Intermitências da Morte”, de José Saramago, o qual ilustra, por meio de uma ficção, o caos social perante ao fato dos idosos não conseguirem morrer, isto é, ser eternamente um “fardo” no tecido social.
Além disso, a compreensão de que a sociedade atual é incapaz de compreender a gravidade de tal situação é responsável pela continuidade desse comportamento de abandono e indiferença. Essa situação acontece por conta da difusão de pensamentos que estimulam a ideia do idoso como um conjunto de obrigações e responsabilidades improdutivas, sem que ninguém sequer se dê conta da realidade negligente que esse processo constrói. Tal cenário aproxima-se da metáfora proposta pelo filósofo grego Platão em seu “Mito da Caverna”, no qual descreve uma situação em que pessoas presas em uma gruta olham para as sombras projetadas na parede e pensam ser aquilo toda a realidade, assim, como a sociedade brasileira, presa na caverna de sua ignorância acredita ser absolutamente normal ser ignorante com o estado da saúde física e emocional da terceira idade, por não conhecer a realidade.
Por fim, diante dos desafios supracitados, é necessária a ação conjunta do Estado e da sociedade para mitigá-los. Nesse âmbito, cabe ao poder público, na figura do Ministério Público, em parceria com a mídia nacional, desenvolver campanhas de conscientização - por meio de relatos e curta-metragens a serem veiculadas nas mídias sociais - a fim de promover um debate sobre o abandono dos idosos. Feito isso, o Brasil poderá garantir a segurança, assistência e acolhimento aos mais velhos.