Abandono de idosos em questão na contemporaneidade

Enviada em 08/08/2021

“Meu pobre pai, você sofreu para me criar, agora eu vou lhe cuidar, essa é a minha obrigação”. Nesse trecho da música “Meu Velho Pai”, de 1970, da dupla “Léo Canhoto e Robertinho”, evidencia-se uma situação de consideração e reconhecimento entre um filho e seu pai — algo completamente diferente da realidade de várias famílias atuais. Nesse sentido, em razão de um modelo cultural tóxico e da falta de empatia de muitos, emerge um grave problema: o abandono de idosos na contemporaneidade.

Diante desse cenário, vale destacar que um sistema que visa, sobretudo, à obtenção de lucros e de resultados é algo que corrobora o esquecimento dos mais velhos. À vista disso, consoante o Instituto Brasileiro de Geografia e Pesquisa, a expectativa de vida no país, em 1940, era de 45 anos, já em 2010, subiu para 75. Entretanto, apesar de um aumento de 30 anos, quantidade não significa qualidade, pois, ao se observar a situação dos que têm mais de 60, percebe-se que muitos deles não são tão valorizados, já que, por causa da toxicidade da norma capitalista, aqueles que não trabalham — a maior parte dos idosos — são vistos como inúteis. Diante do pressuposto, por causa de um forte preconceito em torno do que é considerado velho, que se tornou sinônimo de obsoleto, é nítido que essa parcela da população tende a ser mais ignorada e tratada com descaso.

Nesse contexto, é importante salientar que a falta de compaixão humana é outro grave motivo ao tema. Sob esse ângulo, conforme a filósofa Hannah Arendt, o pior mal é aquele visto como algo cotidiano. Sendo assim, ao se analisar a vida dos longevos, no Brasil, nota-se que, diferentemente da cultura oriental, em que esse povo é admirado pela sua sabedoria de longa data, no Ocidente, pelo fato de eles serem vistos como obsoletos, terríveis consequências vêm à tona. A exemplo disso, podem ser apontados os inúmeros casos desses indivíduos em ambientes que não recebem uma devida atenção estatal — algo que se tornou comum —, visto que, segundo a revista “Istoé”, em 2017, a taxa de idosos instalados em abrigos públicos era de 60.939. Assim, para melhorar a qualidade de vida dos mais velhos, é necessário desconstruir o principal impasse denunciado por Arendt: a banalidade do mal.

Infere-se, portanto, que o Ministério da Educação deve criar um projeto pedagógico, que abordará mais esse assunto nas escolas, por meio de uma nova matéria, que fale sobre os principais entraves da atualidade, como o abandono parental, a fim de tornar as novas gerações mais enganjadas na luta por um país melhor. Por sua vez, o Congresso Nacional precisa melhorar a infraestrutura dos asilos, por intermédio da criação de concursos públicos para profissionais da saúde — enfermeiros, educadores físicos, nutricionistas —, com o intuito de garantir atividades físicas, alimentação saudável e lazer a esses seres humanos. Dessa forma, espera-se tornar vivo a trama da música “Meu Velho Pai”.