Abandono de idosos em questão na contemporaneidade

Enviada em 28/05/2021

Conforme o jornal “El País”, o Brasil apresenta um crescimento da população idosa, a qual, hodiernamente, representa 15% da demografia do país. Tendo isso em vista, infere-se que os índices da expectativa de vida dos brasileiros aumentaram nas últimas décadas. No entanto, na prática, essa realidade é túrgida, uma vez que o abandono de idosos é uma situação recorrente na sociedade. Logo, é de suma importância analisar, respectivamente, as causas e as consequências desse trágico contexto: a indiferença social e o desenvolvimento de abalos mentais.

De início, convém enfatizar que o pensamento, demasiadamente, individualista dos cidadãos está entre as principais causas do abandono de idosos no Brasil. Nesse óptica, segundo Georg Simmel - sociólogo alemão -, no livro “The Metropolis and Mental Life”, a sociedade contemporânea se caracteriza pela chamada “Atitude Blasé”: momento em que o indivíduo passa a agir com indiferença aos problemas alheios e se preocupa, exclusivamente, com futilidades. Sob esse viés, é nítido que essa Atitude Blasé reflete o comportamento de muitas famílias com os idosos, dado que, como afirmado pelo sociólogo, estão mais preocupadas com o acúmulo de riquezas, por exemplo, do que com o bem-estar dos entes mais fragilizados. Dessa forma, é nítido que o comportamento frívolo dos cidadãos colabora com o abandono de idosos e, consequentemente, prejudica a qualidade de vida desse público.

Ademais, é válido ressaltar que o desenvolvimento de abalos mentais se enquadra como uma das consequências mais drásticas do descuido com a população de idade mais elevada. Nesse contexto, no livro “A máquina de fazer espanhóis” de Valter Hugo, o protagonista António da Silva, após o falecimento de sua esposa, foi posto em um lar de idosos. No início da trama, a família se esquece do senhor, o qual é “engolido” por uma tristeza abissal. Nesse viés, sendo o descaso social uma mera reprodução da realidade, hoje são milhares os “Antónios” no Brasil. Portanto, é inaceitável que os familiares abandonem, mesmo que em clínicas especializadas, os idosos, haja vista que a violência psicológica, devido ao sentimento de solidão, é tão impactante quanto uma violência física, o que fere, de forma direta, a dignidade de vida desses indivíduos.

Depreende-se, pois, que o abandono dos idosos no Brasil é um problema urgente na sociedade. Destarte, urge que o Ministério da Saúde - principal órgão responsável pelo bem-estar dos cidadãos-, por meio de campanhas publicitárias, divulguem as consequências físicas e psicológicas que o abandono pode causar em indivíduos já fragilizados. Nesse ínterim, o intuito de tal medida é diminuir o número de casos de descuido com os idosos e, concomitantemente, assegurar uma boa qualidade de vida. Feito isso, a “Atitude Blasé” será extinta e a população desfrutará de uma vida digna.