Abandono de idosos em questão na contemporaneidade

Enviada em 13/11/2021

Manoel de Barros, grande poeta pós-modernista, desenvolveu em suas obras a chamada “teologia do traste”, cuja principal característica reside em dar valor às situações frequentemente ignoradas ou esquecidas. Seguindo a lógica barrosiana, faz-se preciso, portanto, valorizar a problemática do abandono aos idosos na contemporaneidade, haja vista que a negligência estatal e a falta de empatia social corroboram para o crescente aumento do número de idosos abandonados no Brasil. Dessarte, urge a análise e a resolução desses entraves para reverter esse panorama.

De início, é imperioso notar que a indiligência do Estado brasileiro com os idosos contribui para que esses sejam marginalizados e privados de seus direitos. Isso porque, como afirmou Gilberto Dimenstein, renomado escritor e jornalista, em sua obra " Cidadão de Papel", a legislação brasileira é ineficaz, visto que, embora aparente ser completa na teoria, muitas vezes não se concretiza na prática. Prova disso é a falta de políticas públicas voltadas para o bem-estar das pessoas mais velhas e a asseguração de direitos previstos no Artigo 6º da “Constituição Cidadã”, tal como o acesso à saúde, à moradia e à previdência social. Portanto, a falta de comprometimento estatal faz com que muitos idosos sejam totalmente dependentes de terceiros, e assim, mais vulneráveis ao abandono e a violência física e psíquica.

Outrossim, de acordo com o sociólogo Sergio Buarque de Holanda, em seu livro “Homem Cordial”, o egoísmo está no âmago da sociedade brasileira, sendo uma das idiossincrasias de tal sociedade. À luz dessa perspectiva, a falta de empatia perante ao envelhecimento é evidenciado pelo preconceito e repulsão aos idosos, os quais muitas vezes são vistos como um “fardo” e invalidados de qualquer opinião ou desejo. Dessa forma, muitos acabam sendo isolados do convívio social e abandonados em casas, clínicas ou hospitais.

Em suma, diantes dos desafios supramencionados, é necessária a ação conjunta do Estado e da sociedade para mitigá-los. Nesse âmbito, cabe ao poder público, na figura do Ministério da Previdência Social, assegurar que todos os idosos tenham alguma fonte de renda, por meio do aumento do valor do Benefício de Prestação Continuada (BPC), um direito constitucional para todos acima de 65 anos, os quais não possuem condições de prover sua subsistência, a fim de assegurar as necessidades básicas, a exemplo de alimentação, moradia e lazer. Ademais, é indubtável a ação da mídia na promoção de campanhas de conscientização sobre a importância da malha afetiva e familiar na promoção do bem-estar dos idosos. Só assim, criar-se-á um Brasil consentido de seus problemas, como idealizava Manoel de Barros.