Abandono de idosos em questão na contemporaneidade
Enviada em 04/10/2021
Na série “Grey’s Anatomy”, a personagem Ellis Grey é deixada aos cuidados de um asilo por sua única filha. O ambiente piora o quadro de alzheimer da cirurgiã e aumenta os níveis de estresse dela. Do meio artístico para a realidade, no cenário presente, nota-se o abandono de idosos como questão no Brasil. A partir de uma análise da problemática, percebe-se que ela está vinculada à estrutura familiar e à mentalidade social, fazendo-se necessário um debate acerca do assunto.
Nessa perspectiva, em primeiro plano, é lícito destacar o papel da família como fator crucial no que tange à situação contemporânea dos idosos. Sob esse viés, segundo o filósofo Zygmunt Bauman, as relações hodiernas estão pautadas no individualismo, ainda que haja vínculo familiar entre os indivíduos. Dessa forma, é indubitável que o abandono de idosos evidencia essa realidade, visto que os familiares dos mais velhos evitam cuidar deles em razão do próprio benefício e da própria conveniência. Assim, a população mais velha fica vulnerável aos efeitos do abandono, como moradias lotadas e desafios econômicos gerados por esse afastamento da família. À vista disso, é essencial superar esses paradigmas, para reestabelecer o bem-estar dos idosos no país.
Em paralelo, é possível somar aos aspectos supracitados a cultura de aceitação existente no corpo social brasileiro. Nesse quadrante, Simone de Beauvoir afirmou que mais escandasolo que o revés é o fato do coletivo se habituar a ele. Desse modo, é nítido que o tecido social encontra-se habituado ao contexto de abandono de idosos, uma vez que ele persiste pois não há movimentação coletiva para impedir seu avanço. Por consequência, o grupo de cidadãos com mais de sessenta anos é deixado de lado não somente pela família, mas também pela sociedade, igualmente pautada no individualismo. Isto posto, é notória a urgência em extinguir tal problema.
Portanto, são fundamentais ações para mitigar e evitar o abandono de idosos no Brasil. Logo, cabe à família, principal grupo de socialização e apoio ao idoso, elaborar planos de cuidado para o familiar mais velho, por meio de economias e de investimentos que possam garantir uma boa aposentadoria, com o objetivo de proporcionar ao parente conforto e comodidade durante a terceira idade. Ademais, é dever da família checar o local em que o idoso está, para certificar-se de que não há nenhuma irregularidade, seja um asilo ou uma casa. Ainda, é dever da sociedade livrar-se do individualismo, por meio da empatia com o próximo, com o fito de promover uma harmonia social que se inicia com o cuidado com os indivíduos mais velhos. Quiçá, nessa via, o abandono de idosos deixa de ser uma característica do Brasil contemporâneo, e a realidade dos brasileiros se diferencia daquela vivida por Ellis Grey.