Abandono de idosos em questão na contemporaneidade
Enviada em 15/09/2022
Na obra platônica “A República”, Sócrates enaltece a massa longeva ao descrevê-la como detentora de demasiada sabedoria, propondo, assim, sua valorização. Apesar do caráter atemporal dessa ideia, observa-se, hodiernamente, uma realidade distante do pensamento do filósofo, uma vez que o abandono de idosos contrapõe-se ao respeito devido a essa população. Desse modo, é essencial analisar os propulsores desse cenário hostil: a inoperância estatal e o etarismo.
Em primeira análise, é notória a prevalência de uma postura inoperante por parte do Estado no que tange o abandono de idosos no Brasil. Nesse sentido, a Constituição Federal, em seu artigo 230, atribui ao Estado o dever de amparar a população da terceira idade. Entretanto, dados do IBGE demonstram que mais de 4 milhões de pessoas acima de 65 anos de idade vivem, de modo desfavorável, sozinhas. Sob essa ótica, a persistência do óbice supracitado demonstra que o Estado não cumpre a função social que lhe foi designada, assumindo, logo, a posição de Instituição Zumbi, como propôs o sociólogo Bauman.
Ademais, verifica-se não só o abandono físico de idosos, mas também o abandono moral, caracterizado, sobretudo, pela exclusão dessa faixa etária dos espectros sociais mais relevantes. Tal panorama é oriundo do etarismo, discriminação baseada em critérios de idade, o qual distancia os idosos de atividades cotidianas, como o trabalho, por considerá-los incapazes e/ou obsoletos. Essa conjuntura segregacionista, além de ser erroneamente enraizada na sociedade, implica a infelicidade dos indivíduos vitimados pela mesma, já que, de acordo com Aristóteles, a felicidade correlaciona-se com a convivência entre os homens.
É evidente, portanto, a necessidade de medidas que solucionem a problemática do abandono de idosos no Brasil. Por isso, o Ministério Público - órgão responsável pela defesa dos interesses sociais – deve, por meio da fiscalização acerca do cumprimento da Carta Magna, pressionar o Estado para a elaboração de medidas que visem nulificar o problema. Além disso, a mídia deve, por intermédio de propagandas, instruir a sociedade no que toca a discriminação etária. Só assim, garantir-se-á a reversão desse cenário.