Abandono de incapaz em questão no Brasil

Enviada em 29/08/2021

Na obra “Utopia”, do escritor inglês Thomas More, é retratada uma sociedade idealizada, formada por um corpo social isento de conflitos e de problemas,ou seja, ausente de mazelas sociais e paradigmas no âmbito ético-moral. Fora da ficção, vê-se que a realidade contemporânea diverge substancialmente do exposto no livro, uma vez que existem barreiras como o abandono parental, o qual apresenta consequências graves à sociedade como um todo. Esse cenário antagônico é fruto tanto da ligação dos pais com as atividades laborais, quanto da má influência midiática no culto à familia tradicional.

Convém ressaltar, diante dessa realidade, o dilema presente no cotidiano de diversos pais, em grande parte, nas áreas periféricas brasileiras, entre a escolha de buscar melhores condições de vida por meio de postos trabalhistas e,em contrapartida, abandonar seus filhos sem previsão de retorno. Nesse sentido, ganha voz o pensamento do sociólogo Lipovetsky, o qual dissertou acerca da irresponsabilidade social frente a simplificação de coisas naturalmente complexas, isto é, uma parte majoritária da sociedade emite juízos de opinião simplistas, sem a compreensão do contexto. Na esteira dessa ideia, no que se refere ao abandono parental, embora existam episódios cruéis de abandono em locais inóspitos, existem indivíduos que contrastam com o paradigma de viver em condições miseráveis ou buscar a mudança dessa situação por meio da busca de empregos distanciados da cidade de origem abdicando de parâmetros éticos, como abandonar os próprios filhos.

Além disso, o abandono parental contrasta com consequências psicológicas às crianças e aos jovens, problemas reforçados ao longo da vida com a discriminação social, impulsionados pela mídia. De acordo com o sociólogo Bourdieu, os veículos midiáticos foram criados para serem instrumentos democráticos e de inclusão das minorias sociais. Entretanto, contrapondo o defendido pelo pensador, nota-se que o fato das novelas televisivas, em geral, normatizarem a presença de famílias tradicionais, isto é, compostas pela figura materna e paterna, contribuem para a exclusão daqueles que não se sentem representados com tais papéis em suas famílias, o que favorece o surgimento de problemas psicológicos, como depressão. Dessa forma, é preciso maior cobrança social e mudança cultural.

Infere-se, portanto, que urgem medidas efetivas visando reduzir os impactos proporcionados às crianças abandonadas pelos pais. A priori, compete aos cidadãos brasileiros uma postura proativa no que tange a cobrança às prefeituras municipais, para que haja a criação de abrigos humanizados, diferentemente do que ocorre atualmente, por meio da contratação de profissionais da educação, fornecimento de espaços de lazer e suporte alimentar adequado, com o objetivo de possibilitar a inclusão social de crianças sem perspectivas de vida e prepará-las para a vida adulta e para o trabalho.