Abandono de incapaz em questão no Brasil
Enviada em 29/09/2021
“Que tipo de mundo queremos construir para os nossos bisnetos?”. Esse questionamento, elaborado pelo filósofo Richard Rorty, deveria estar constantemente presente na sociedade, principalmente no que tange a questão do abandono de incapaz no Brasil. Tal problemática é fruto inquestionável de uma racionalidade fundada pelo capitalismo, que provoca a dessensibilização da percepção humana em questões que, como essa, demandam reconhcer a importância da proteção da existência daqueles em circunstância vulnerável. Dentre os fatores que alicerçam esse contexto, destacam-se a negligência do Estado e o comportamento individualista do corpo social.
Em primeiro lugar, evidencia-se que a omissão estatal, influenciada por uma mentalidade capitalista, contribui para a manutenção do cenário constante de desamparo daqueles privados de autonomia. Isso ocorre, pois os governantes buscam o acúmulo de capital político em seus mandatos e, para isso, investem em obras de impacto grandioso e de fácil execução, ao invés de políticas sociais mais complexas e de menor visibilidade. Essa análise assemelha-se a afirmação do sociólogo Zygmunt Bauman, para quem “A invisibilidade é equivalente à morte”, uma vez que a falta de atendimento do Estado a essa causa sufoca a sua importância e mantém a marginalização dos sujeitos envolvidos.
Além disso, percebe-se que a conduta da população regida pelo individualismo, característica da estrutura capitalista, cristaliza a realidade de descaso com pessoas mais vulneráveis. Essa situação decorre, principalmente, da banalização da atitude de impassibilidade que, disseminada por essa conjuntura, dessensibiliza o imaginário coletivo e cria uma falsa ideia de isenção quanto à responsabilidade em, por exemplo, denunciar casos de abandono. Esse panorama dialoga com o conceito de “violência simbólica”, introduzido por Pierre Bourdieu, visto que, apesar de não configurar uma violação física direta, a indiferença em prestar apoio viola e põe em risco em igual sentido o bem-estar daqueles que o necessitam.
Compreende-se, portanto, que a racionalidade estruturada pelo capitalismo solidifica o problema do abandono de incapaz no Brasil. Nesse sentido, torna-se necessário que o Ministério Público atue, ao pressionar o governo federal para a criação de um Plano Nacional de Combate ao Abandono de Incapaz que vise, por meio de uma ação integrada entre os Ministérios da Cidadania e da Educação e as autoridades de assistência social, a redução desse cenário de desamparo, a partir da estipulação de uma verba anual fixa destinada à políticas públicas que proporcionem assistência àqueles em situação de abandono e a desnaturalização dessa situação para a construção de uma sociedade mais consistente de seus deveres, ao introduzir nos ambientes escolares a discussão sobre esse tema.