Água: aprenderemos com a atual crise hídrica?
Enviada em 19/03/2020
O Brasil é um dos países com maior disponibilidade de água no mundo, aproximadamente 12% da água doce do planeta. No entanto, diferente do que se poderia inferir diante de tal fato, partes do território como os estados de São Paulo, Minas Gerais e regiões nordestinas apresentam graves crises hídricas, que marcaram as últimas décadas. Essa instabilidade promete perdurar, visto que a gestão da crise é lânguida e, frequentemente, se apoia no determinismo geográfico, além de que as raízes da carência hídrica são muito profundas e abarcam diversos âmbitos da dinâmica geográfica brasileira.
O determinismo foi uma corrente geográfica, que defendia que a natureza era o principal agente geográfico e condicionava a ação humana e o desenvolvimento de regiões. Mesmo superado, ainda é utilizado por governos para evitar as responsabilidades. Quando as reais causas não são reconhecidas, as medidas de solução são superficiais. A falta de chuva nada tem a ver com a escassez de água nas torneiras. A exiguidade é resultado do mau gerenciamento dos recursos hídricos -poluição, desperdício, alto consumo da agropecuária, desmatamento e falta de investimentos na reutilização- além da negligência diante da aproximação entre oferta e demanda. Por exemplo, em 2016, enquanto o consumo estava no limite há 30 anos, a capitação de São Paulo não havia sido ampliada há 15 anos.
Ademais, mesmo com um volume alto de chuvas, a recuperação levaria tempo. As crises tem origens sistemáticas e antigas. Em São Paulo, a estrutura da rede hídrica é falha, assim como a captação e o saneamento básico, devido a um processo de urbanização desordenado e rápido, que se deu sem preocupação com os recursos hídricos. Por exemplo, a explosão demográfica da década de 1980 gerou loteamentos irregulares e favelas que poluíram a represa de Guarapiranga. Podemos analisar também, através de obras como Vidas Secas, O Quinze, entre outras de mesmo tema, que a seca nordestina é antiga e ganhou força a partir de várias décadas de negligência estatal.
Nesse sentido, o mais importante para que medidas sejam tomadas de forma eficiente é o entendimento das falhas em todas as instâncias do consumo, assim como da ação estatal diante da escassez. Estudos e ações devem ser realizadas a curto, médio e longo prazo, perante a complexidade do problema. A fim de garantir o acesso à água, em união, os ministérios da tecnologia e da agricultura devem investir na importação de métodos de desenvolvimento de áreas secas, de países como Israel e em pesquisas e implantação de técnicas de menor desperdício na agropecuária. Já o ministério da infraestrutura deve trabalhar na renovação e ampliação de redes de distribuição, captação hídrica e tratamento de esgoto .