Água: aprenderemos com a atual crise hídrica?
Enviada em 14/05/2020
Na obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, há a retratação do sofrimento vivido pelo sertanejo com o advento da seca e dos malefícios trazidos por ela. De maneira similar, a crise de água do livro em nada difere da real situação hídrica do Brasil, pois a postura banalizada dos cidadãos, bem como o descaso das autoridades são aspectos intensificadores desse caos moderno. Dessa maneira, reavaliar o comportamento e a gestão sociais torna-se dever de cada brasileiro, a fim de que a preocupação com o futuro seja uma alternativa ao problema.
A princípio, as ações triviais dos indivíduos diante da questão hídrica se mantêm associadas ao sentimento de inesgotabilidade do recurso natural. Sob essa vertente, em um episódio do seriado “Chaves”, as crianças brincam e gastam muita água da vila. A consequência do gasto excessivo foi a falta de abastecimento, por dias, em suas habitações. Semelhante conduta abusiva sobre o recurso natural, denunciada pela produção televisiva, ainda se manifesta contemporaneamente, sobretudo ao analisar as atividades agropecuárias no Brasil, cujas técnicas de irrigação, preocupadas apenas em lucrar, consomem cerca de 70% da água utilizada pelo ser humano, de acordo com a ONU. Dessa forma, é indubitável a necessidade de uma revisão das atividades com hídricas nos setores agropecuário e doméstico, visando o o controle do recurso natural.
De outra parte, a socióloga Hannah Arendt, por meio da teoria da Banalidade do mal, demonstra que a negligência a qualquer problema, como o persistente descaso ambiental, pode gerar um caos. Em face disso, tal preceito assume contornos específicos no brasil, onde - apesar de levar o título de maior detentor de água doce do mundo - há quem sustente e propague o sentimento de negligência com os recursos hídricos. A exemplo disso, cita-se o temor que assolou Campinas, em 2019. Os cidadãos desperdiçaram o recurso natural excessivamente, no que desencadeou em uma crise de abastecimento na cidade. Nesses termos, percebe-se a coerência de Hannah Arendt ao determinar a conduta indiferente do indivíduo como a principal causadora da desordem no meio ambiente.
É urgente, portanto, ações conjuntas entre Governo e sociedade diante da atual crise hídrica. É de suma importância que o Governo Federal, com o auxílio do Ministério do Meio Ambiente, promova planos de valorização da água, por meio de leis - como a Lei do Consumo Máximo - nas quais se ensinem a desconstruir o costume de desperdício exacerbado, a fim de conter a esgotabilidade da fonte de vida. Por fim, tais ações serão decisivas para que o panorama de “Vidas secas” torne-se uma realidade distante.