Aleitamento materno em questão no Brasil

Enviada em 07/10/2019

A filósofa Simone de Beauvoir escreveu que ninguém nasce mulher, mas por meio da imposição de papéis socialmente estabelecidos, torna-se mulher. Dessa maneira, a sociedade patriarcal passa a determinar que o corpo feminino deve ser escondido para evitar a transgressão da pureza associada ao gênero. Diante disso, processos naturais da existência humana, como o aleitamento materno, são afetados pelo preconceito em aceitar esse costume em espaços públicos. Ademais, a falta de conhecimento sobre esse hábito intensifica os desafios enfrentados pelas lactantes no século XXI.

Nesse contexto, é possível analisar que o aleitamento em locais coletivos é prejudicado pela intolerância quanto à exposição do corpo da mulher. Embora a Constituição Federal de 1988 garanta às crianças o direito à alimentação, a teoria não é totalmente garantida, haja vista a limitação que as mulheres possuem em aleitar os filhos em qualquer espaço. Isso ocorre, principalmente, pelos comentários que constrangem as mães, pois seus corpos parcialmente despidos em razão de uma questão essencial da existência humana, são tratados como impuros aos olhares do patriarcado. Logo, os recém-nascidos são atingidos de modo a serem privados da alimentação quando sentem fome, e o grupo mulheril é afetado quando não pode ter a sua plena liberdade estabelecida.

Além disso, a falta de instrução da população faz com que a importância da amamentação nos primeiros anos de vida seja negligenciada. Em razão disso, em agosto é celebrado a semana Mundial do aleitamento materno pela Organização Mundial da Saúde para reforçar a importância desse cenário para a sociedade como um todo. Contudo, ainda que essa data vise chamar a atenção da população, o pouco interesse popular faz com que as pessoas desrespeitem o ato de amamentar em público, ou deixem de auxiliar àquelas que não sabem os motivos de realizar esse ato, visto que não é do conhecimento geral que o leite produzido após a gestação é a primeira fonte de anticorpos fornecida aos que nasceram. Logo, há a desproteção dos recém-nascidos contra as primeiras doenças, uma vez que a fonte de nutrição é negada ou limitada pela escassez de informação.

Infere-se, portanto, que medidas devem ser tomadas para incentivar o aleitamento materno. Para isso, o Ministério da Saúde, aliado à mídia televisiva, deve criar propagandas que circulem em grandes redes de comunicação, as quais expliquem os benefícios da amamentação, com a finalidade de permitir que mais pessoas saibam sobre esse hábito importante para o bem estar dos envolvidos. Outrossim, o Governo Federal, mediante projeto de lei, garanta às mães o direito de aleitamento em qualquer lugar, com multas aos que tentarem limitar esse acesso. Dessa maneira, a sociedade de Simone de Beauvoir poderá ser, em parte, amenizada quanto a função social do corpo da mulher brasileira.