Aleitamento materno em questão no Brasil
Enviada em 09/10/2019
São muitos os desafios enfrentados pela mulher contemporânea que opta pela maternidade, não apenas aqueles inatos à criação, mas também os impostos por uma sociedade machista. Dentre estes, o maior exemplo é o preconceito sofrido pelas mães no ato da amamentação, o qual é, em geral, julgado como sujo, o que causa constrangimento às lactantes. Além da questão cultural, a hostilidade do mercado de trabalho dificulta a sua conciliação com o cuidado maternal. Todavia, o aleitamento materno é uma questão de saúde pública, e a sua falta põe em risco o bem-estar do bebê e da mãe, por isso é preciso uma ação do Estado de modo a minimizar tais empecilhos.
A priori, é preciso ponderar as questões sociológicas e culturais que permeiam a maternidade no Brasil. Sabe-se que, ao mesmo tempo em que a sociedade pressiona as mulheres a terem filhos, não existe apreço, ou sequer respeito, por essa condição, o que se evidencia pelo preconceito acerca da amamentação em público. Também fica marcado nessa questão o papel do processo civilizatório, que conforme descrito pelo psicanalista Sigmund Freud, remove o Homo Sapiens de sua condição enquanto espécie de mamífero, para em lugar disso o sujeitar à ordem social. Logo, a aversão ao bebê e à feminilidade que o gerou é a recusa do ser humano em contemplar-se em seu estado de natureza.
Nesse sentido, a licença maternidade foi um ganho para a mãe, cujo emprego é salvaguardado enquanto cuida do filho. Contudo, passado esse período, o retorno às atividades cotidianas é sobremaneira desgastante, pois após uma exaustiva jornada de trabalho, essas mulheres ainda têm responsabilidades domésticas e com os infantes (que, irrevogavelmente, comprometem seu sono). Em meio à tantos afazeres, não é nenhuma surpresa que tantas mães já não possam prover os filhos com leite materno até os dois anos recomendados pelos profissionais da saúde. À isso, soma-se o fato de metade delas se verem perdendo o emprego pouco depois de retornar da licença, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas. Assim, a manutenção do trabalho e da saúde infantil perpassa, necessariamente, pela reformulação da carga horária das lactantes.
Portanto, para que haja mais cuidado com as criancinhas no tocante à amamentação, é preciso que antes se cuide de suas mães, e apesar das questões culturais serem difíceis de transformar, é tanto possível quanto necessário uma mudança em termos práticos. Para isso, os poderes legislativo e executivo devem deliberar uma ementa para a Consolidação das Leis Trabalhistas que garanta uma redução de duas horas na carga horária de mães cujos filhos tenham menos de dois anos, a fim de que possam conciliar ambos trabalho e maternidade de maneira digna, que lhes permita tempo para amamentar adequadamente os filhos. Com isso, espera-se promover mais saúde para mãe e bebê.