Aleitamento materno em questão no Brasil

Enviada em 09/10/2019

Em sua obra “O cortiço”, o autor brasileiro Aluísio Azevedo narra a história de Rita Baiana que é um símbolo de sensualidade e ao mesmo tempo de ojeriza perante a sociedade carioca do século XIX. Fora das páginas, é fato que a misoginia, também enraizada de maneira intrínseca à moral, culmina em intempéries até mesmo em gestos comuns ao seres humanos como a amamentação. Desse modo, a condição subalterna da figura feminina como objeto de desejo somada à ineficácia estatal perante medidas basilares de educação propiciam que o tabu da amamentação persista na contemporaneidade.

A princípio reconhece-se como o ato de amamentar, por mais que inato a qualquer mamífero, é visto como tabu por uma sociedade tipicamente misógina. Acerca disso, rememora-se o discurso do sociólogo Émilie Durkheim, que disserta que um conjunto de pensamentos, mesmo que preconceituosos, podem ser passados durante gerações de maneira externa e coercitiva. Logo, se o papel da mulher desde o início da civilização era visto como inferior perante a figura masculina, é praxe inferir que atos comuns àquele gênero, como a amamentação, também sejam mal vistos por uma comunidade machista na atualidade.

Além disso, é ponto pacífico inferir que o Estado é faltante a várias medidas que promovam aceitação social no que tange o gesto da amamentação. Segundo o contratualista John Locke, a persistência de amarras sociais são causadas inegavelmente pela ineficiência da nação que, em suma, deveria guarnecer qualidade de vida à todo e qualquer cidadão. Portanto, se a amamentação como ato fundamental à vida persiste como tabu é porque o Estado negligência seu papel na mudança desse paradigma através de uma educação adequada.

Destarte, torna-se inconcebível aceitar que o ato da amamentação continue como tabu, fato esse que urge mudança. Para tanto, é mister que o Ministério da Educação – em parceria com o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos – crie aulas especiais de combate à misoginia e incentive a visão da amamentação como característica biológica e necessária. Essa medida poderia ser feita por meio das aulas de Sociologia e Biologia, atentando, com interdisciplinaridade, o papel imprescindível da mulher na nação. Dessa forma, sociedade e literatura podem se orgulhar de possuírem a figura feminina, não mais como um objeto de desejo – assim como em “O cortiço” – mas sim como a verdadeira e forte face da mãe brasileira.