Aleitamento materno em questão no Brasil
Enviada em 12/10/2019
Lucro e preconceito
Uma figura histórica da sociedade escravocrata brasileira é a ama-de-leite, mulher negra que tinha o dever de amamentar filhos de brancos. Diante desse fato, indaga-se quais eram os motivos que sustentavam o ato de uma mãe delegar a outra pessoa a amamentação do seu descendente, e a resposta para essa pergunta reside em dois fatos: preconceito social e interesse econômico. Ademais, é necessário acrescentar que tais fatores ainda influenciam a sociedade contemporânea e fazem com que o aleitamento infantil seja negligenciado a muitas crianças.
Por um lado, a amamentação sofre com a discriminação que se enraizou na sociedade. Para ilustrar, no século XIX, havia um entendimento de que o ato de amamentar em público era obsceno, o que era reflexo de uma cultura machista e patriarcal dominante na sociedade. Assim, como explica o sociólogo Jurgen Habermas, uma vez que essa visão retrógrada de mundo foi hegemônica por muito tempo, ela criou raízes nas instituições sociais e passou a ser tida como normal. Logo, ainda hoje, o preconceito se configura um obstáculo às mulheres e precisa ser combatido.
Por outro lado, existe uma lógica capitalista que torna o desmame precoce interessante para certos indivíduos. Se na sociedade escravista o comércio de amas-de-leite era uma atividade extremamente lucrativa, hodiernamente a mídia explora o baixo índice de aleitamento para promover produtos que prometem praticidade e nutrição completa, de acordo com os interesses da indústria de alimentos instantâneos. No entanto, não se veicula a extrema importância da amamentação que, segundo estudos do instituto de pediatria da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), é insubstituível para um desenvolvimento saudável das crianças. Sendo assim, conclui-se que muitas mães comprometem a vida dos filhos por causa de desinformação e manipulação midiática.
Destarte, para mudar esse quadro prejudicial à saúde da população infantil, é necessário que o Estado aja em duas frentes. No âmbito educacional, o Ministério da Educação, em parceria com o SUS (Sistema Único de Saúde), deve ampliar o programa “Saúde na Escola” do governo federal, levando a temática da amamentação para dentro das salas de aula, por meio da criação de uma cartilha que explique a importância de amamentar as crianças e de palestras realizadas por médicos que busquem desconstruir o preconceito acerca do aleitamento em público, de modo a criar uma juventude mais consciente e menos intolerante. Concomitantemente, o Ministério das Justiça, com o intuito de evitar o desmame precoce, crie uma lei que obrigue os produtores de alimentos destinados a bebês a explicitarem no rótulo de seus produtos que estes não substituem o leite materno, que é fundamental.