Aleitamento materno em questão no Brasil

Enviada em 20/10/2019

O documentário intitulado como “De peito aberto” retrata a vida de 6 mães e os desafios da amamentação durante os primeiros 180 dias de vida do bebê, são mulheres de diferentes realidades socioeconômicas que lidam com as questões do século atual e com a chegada dos filhos. Assim como o documentário retrata, a questão do aleitamento materno exclusivo é um entrave, ocasionado ora pelo desmame precoce, ora pelo preconceito que circunda o ato de amamentar.

Em primeira análise, a ablactação precoce é um fator que acentua o problema. Posto que na contemporaneidade, a mulher ocupa um novo papel na sociedade, papel esse que contribui na desvinculação da sua imagem à casa, aos serviços domésticos, o que dá margem para que esteja cada vez mais imersa no mercado de trabalho. Com esse rearranjo do corpo social, a mulher se divide em mãe e profissional, o que dificulta o aleitamento materno exclusivo nos primeiros 6 meses de vida, uma vez que, no Brasil, geralmente, as empresas disponibilizam apenas 4 meses de licença-maternidade. Vale ressaltar que o leite materno possui todos os nutrientes essenciais para o desenvolvimento saudável do bebê e é um bom aliado à saúde da mãe, logo, amamentar é fundamental.

Outrossim, o preconceito com a amamentação em ambientes coletivos corrobora o impasse. De acordo com uma pesquisa realizada pelo jornal O Globo, 47,5% das brasileiras relataram que já sofreram preconceito por amamentar em público, colocando o Brasil no topo entre os países que mais censuram a mulher durante esse momento. Tal dado evidencia a objetificação do corpo feminino e o machismo enraizados na sociedade, na medida em que um seio exposto incita olhares curiosos. À luz da teoria habitus de Pierre Bourdieu, a sociedade incorpora as estruturas sociais que são impostas à sua realidade, naturaliza e reproduz ao longo do tempo. É o que ocorre, portanto,  com a reificação do corpo da mulher , em virtude de durante toda a vida ser vista como objeto de prazer e procriação.

É evidente, por conseguinte, que medidas são necessárias para mitigar o entrave. Os estabelecimentos devem prezar pelo bem-estar da mãe e da criança, por meio da criação de ambientes propícios para aleitação ou ainda para retirada saudável do leite, a fim de que a criança não seja privada do seu alimento, tampouco a mãe de um momento com seu bebê, com o intuito de evitar o desmame prévio e a suscetibilidade do lactente à doenças. Ademais, a lei sancionada em São Paulo, a qual dá o direito de mães amamentarem seus filhos sem serem incomodadas em lugares públicos, deve ser posta em vigor por todo o país, com o propósito de evitar o transtorno a que mãe e bebê são submetidos e, ainda, promover a democratização do mamar.