Aleitamento materno em questão no Brasil
Enviada em 29/10/2019
A amamentação e a busca por alternativas artificiais ao leite materno constituem uma díade presente em grande parte da história registrada, em que ora uma, ora outra era encorajada. Esse ciclo, no entanto, foi quebrado com o advento do marketing, que popularizou alimentos pós-natais artificiais. No Brasil, essa estratégia efetivou a transição da amamentação natural para a artificial, através do discurso científico mercadológico e do fortalecimento do tabu em torno do seio feminino.
Em primeira análise, é necessário verificar o papel determinante do marketing na transição do leite materno para o artificial. Propagandas em revistas e congressos médicos financiados pela indústria alimentícia brasileira no período entre as décadas de 30 e de 70 impulsionaram as vendas dos compostos, se valendo da autoridade médica e do cientificismo para consolidar essa tendência. Em “O Alienista”, é possível observar como o status adquirido por Dr. Simão Bacamarte possibilitou a distorção da realidade, em claro paralelo com a sociedade brasileira moderna.
Já sob uma análise social, o aleitamento tem sua imagem corrompida no contexto de uma sociedade patriarcal, como a brasileira, marcada por tabus em torno do corpo feminino. É sob essa égide social que Simone de Beauvoir escreveu “O segundo sexo”, analisando como o patriarcado influencia o comportamento feminino, reprimindo atitudes sexualizadas pelo homem. Desse modo, a amamentação em locais públicos, onde as construções sociais operam fortemente, é desestimulada.
Portanto, se fazem evidentes as necessidades tanto de regular a influência comercial sobre os médicos quanto de desconstruir o tabu em torno do seio em locais abertos. Para tanto, é mister que o Ministério da Saúde delimite o fluxo de caixa privado direcionado aos médicos, por meio da catalogação das empresas e dos produtos ofertados. Já no tocante ao tabu, a educação de adultos e jovens é essencial, conduzida pelas escolas através de palestras que expliquem a normalidade do aleitamento em local público. Assim, será possível repopularizar o aleitamento.