Aleitamento materno em questão no Brasil

Enviada em 20/04/2020

Nos quadros do pintor Jean-Baptiste Debret acerca do cotidiano da sociedade brasileira do século XVIII, uma cena é retratada com relativa frequência: a imagem de uma criança sendo amamentada. Apesar de ser um hábito secular, foi somente com os avanços da ciência contemporânea que os indivíduos validaram o papel sine qua non do aleitamento materno para o desenvolvimento dos recém-nascidos. Nesse sentido, a despeito de ser referência mundial no tema, o Brasil busca potencializar o incentivo a tal prática, que tem como entraves a insuficiência das políticas públicas e o preconceito.

A princípio, observa-se que o abandono da alimentação exclusiva com leite materno para o neonato é reflexo da falta de orientação sobre como amamentar. Para a fonoaudióloga Roberta Martinelli, especialista no tema, ensinar como obter o encaixe correto da região oral do bebê com o seio da mãe é imprescindível. Dessa forma, diante de projetos de saúde com enfoque na conscientização, apenas informar gestantes sobre a importância do ato sem, no entanto, fornecer suporte sobre como realizá-lo, mostra-se insuficiente. Tal realidade contribui para formar uma legião de mulheres que enfrentam um aleitar doloroso e que, por conseguinte, tendem a optar por fórmulas infantis, que são incapazes de suprir as necessidades nutricionais do lactente.

Outrossim, o preconceito da sociedade contribui para a problemática, uma vez que os indivíduos tendem a determinar o local adequado para lactação ocorrer. Quanto a isso, a filósofa Caroline Heldman afirma que a figura feminina é objetificada, processo que resulta na hiperssexualização de seu corpo. Nesse contexto, restritos à visão erótica e acobertados pela ausência de legislação federal que preveja punição, uma parcela da população julga que amamentar em espaços públicos é inapropriado, submetendo a mãe à intimidação verbal e psicológica.

Percebe-se, portanto, que o aleitamento enfrenta entraves para sua plena execução no Brasil. Para minimizá-los, as secretarias estaduais de saúde devem aprimorar as políticas públicas de saúde voltadas para as gestantes. Isso pode ser feito a partir do fornecimento de cursos práticos sobre como alcançar a sucção correta do leite, a serem ministrados gratuitamente nas unidades básicas de saúde de cada município, com a presença dos futuros pais e de um profissional capacitado para tal. Além disso, cabe ao Ministério da Saúde incentivar a lactação em espaços coletivos, mediante a realização de campanhas nas redes sociais e da parceria com a sociedade civil organizada, para solicitar ao poder executivo a criação de uma lei federal que iniba atitudes de constrangimento. Espera-se, assim, democratizar os benefícios da amamentação para as mães e bebês brasileiros.