Aleitamento materno em questão no Brasil
Enviada em 26/06/2020
Na série canadense “The Handmais’s Tale”, é retratada a distopia de Gilead, na qual as poucas mulheres férteis restantes - chamadas de Aias - são obrigadas a engravidar dos homens ricos da cidade e, posteriormente, entregar seus bebês. Além disso, logo após o parto, as Aias são proibidas de amamentar, o que impediria a criação de um laço afetivo com a criança. De fato, a amamentação é um fator essencial para o desenvolvimento infantil e para a consolidação da relação maternal. No Brasil, entretanto, essa atividade inerente ao ser humano, muitas vezes, é vista como vulgar por parte da sociedade, o que representa um problema nocivo. Nesse preocupante contexto, é preciso compreender como o machismo enraizado no tecido social e a falta de políticas públicas de estímulo ao aleitamento materno contribuem para a persistência desse preconceito.
Em primeiro lugar, o machismo estrutural é uma questão crucial ao analisar o impasse. Segundo a socióloga Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher”, o que expõe a posição de submissão que o sexo feminino enfrenta diante a sociedade. Em consonância com a autora, o preconceito contra o ato de amamentar em público também se relaciona com essa submissão, uma vez que o corpo feminino é visto, por parte dos indivíduos, como um instrumento de prazer para o sexo masculino. Dessa maneira, o medo do julgamento, da vulgarização e a vergonha contribuem para o abandono do aleitamento materno.
Além disso, a falta de políticas públicas de estímulo e conscientização sobre a amamentação perpetuam o problema. Segundo o filósofo Aristóteles, “política é a arte de gerir a pólis visando ao bem comum”. No entanto, apesar do Artigo 6 da Constituição Federal garantir a proteção à maternidade como direito social, este não é concretizado, por completo, na prática. Isso ocorre devido aos baixos investimentos no setor da saúde pública e à ausência de campanhas de conscientização. Dessa forma, nos afastamos da máxima aristotélica e o preconceito contra esse ato fundamental persiste.
Torna-se evidente, portanto, que medidas são necessárias para resolver a questão do aleitamento materno no Brasil. Nesse sentido, além de promover campanhas publicitárias de conscientização, o Estado e o Ministério Público devem criar um projeto de lei que será entregue à Câmara dos Deputados, para que o número de investimentos no setor da saúde pública aumente. Isso deve ocorrer por meio de parcerias com empresas privadas, a fim de criar novos projetos de acompanhamento psicológico de gestantes e promover debates sobre a amamentação em público - o que amenizará os impactos do machismo. Somente assim, estaremos mais próximos de um país que valoriza a amamentação, diferentemente de Gilead.