Aleitamento materno em questão no Brasil

Enviada em 12/12/2020

A filósofa francesa Simone de Beauvoir protesta, celebremente, acerca dos direitos das mulheres quando diz: “Que a liberdade seja nossa própria substância”. Não somente restritas ao seu século e localidade, as palavras de Simone trazem à luz a questão do aleitamento materno no Brasil, uma vez que, muitas vezes, mulheres são reprimidas por realizarem ato tão singelo quanto o de amamentar, tendo sua liberdade individual cerceada devido à hipersexualização do corpo feminino e também aos mitos que circundam o período da amamentação.

A priori, como diz Theodor Adorno, sociólogo alemão, “o humano estabelece-se na imitação”. Nesse contexto, o massivo conteúdo midiático difunde, através da propagação de estereótipos de gênero, a concepção que o corpo da mulher é tanto um bem comum quanto está sempre disponível. Consequentemente, as mulheres se tornam mais suscetíveis a discriminação no aleitamento materno, visto que a sociedade assimila essa realidade machista pelo que vê como normal pelos seus comuns, os imitando, e reproduzindo discursos sexistas e limitados, onde aleitar em público é visto como desacato aos “bons costumes”. Assim, a excessiva sexualização das diversas partes da anatomia feminina, em especial, as mamas, oprimem inúmeras mães brasileiras que se vêem coagidas a amamentar em público, sendo vítimas de coerção ao serem sexualizadas em momento tão sensivel.

Outrossim, as múltiplas informações equivocadas sobre o aleitamento materno dificultam a sedimentação de uma cultura respeitosa para as genitoras, que se encontram rodeadas de questionamentos duvidosos. Consoante a isso, Roland Barthes, crítico literário francês, reflete sobre como a tradição não-pensada impede a continuidade sadia de uma comunidade. Dessa maneira, crenças falsas como a que relata que “leite materno não alimenta”, reforçam o preconceito infundado sobre essa prática natural e interrompem a fluxo de conhecimento, já que é amplamente documentado por especialistas a importância desse alimento para os primeiros anos de vida.

Portanto, diante das adversidades apresentadas, faz-se indispensável o combate à hipersexualização feminina, a começar pela exigência de maior representatividade de mulheres reais em propagandas públicas e privadas, sendo essa responsabilidade da CONAR, a serem partilhadas nos principais veículos de comunicação para dissolução da mentalidade machista. Ademais, o governo federal, por meio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, deve promover políticas públicas que desmistifiquem o aleitamento materno, a exemplo de campanhas de conscientização da importância do mesmo a fim de levar informação à população. Destarte, a desinformação e o preconceito darão espaço para a tal substância da liberdade que merecem as mães brasileiras.