Alternativas para combater a transfobia no Brasil contemporâneo

Enviada em 13/11/2021

No filme “Garota Dinamarquesa”, ao começar a questionar sua identidade de gênero e, por conta disso, ser julgado, e condenado, por médicos e pessoas da sociedade dinamarquesa do século XX, o personagem Lili se vê obrigado a deixar seu país de origem. Análogo ao contexto explorado pelo filme, o preconceito e apatia do tecido civil no que se refere às vertentes da diversidade de gênero e orientação sexual configura um revés de consideráveis proporções. É preciso deliberar, pois, acerca do legado histórico e da lacuna educacional como sendo os principais impasses no combate à transfobia no país.

A princípio, é oportuno mencionar a influência das raízes históricas sob a perspectiva de Sérgio Buarque de Holanda. Para o sociólogo, o brasileiro carrega consigo fortes traços de seu passado colonial e patriarcal, no qual prevaleceu a imposição de preceitos católicos como único modo de vida aceitável. Com base nisso, nota-se que tais características, infelizmente, reverberam no comportamento de muitos grupos conservadores que manifestam atos transfóbicos e, por vezes, adotam condutas abusivas e violentas contra a comunidade LGBTQIA+, como linchamentos virtuais e agressões físicas. Assim, é inadmissível que as mazelas do passado continuem a perpetuar na sociedade hodierna, tendo em vista os prejuízos à dignidade humana que podem ser gerados a partir disso.

Sob um segundo olhar, deve-se destacar a influência da lacuna educacional como elemento propulsor do imbróglio. Sob esse viés, o filósofo brasileiro Paulo Freire defende que a escola abandone a metodologia exclusivamente tecnicista para desenvolver laços de convivência nas pessoas. No entanto, os espaços educativos, por vezes, ao passo que priorizam o conhecimento técnico, não preparam os indivíduos para viver em sociedade. Isso se concretiza no modo como considerável parte da população reproduz falas e comportamentos transfóbicos, por vezes, involuntariamente, devido ao ‘défcit’ de conhecimento sobre educação sexual adequada. Logo, com vistas a seguir as bases pensamento freiriano, é necessário que a conduta escolar seja repensada nesse aspecto.

Em suma, erradicar os elementos que fomentam a manifestação da transfobia no país é fundamental. Urge, portanto, que o Ministério de Educação — responsável por reger o sistema de ensino brasileiro — , através da priorização de disciplinas sobre orientação e identidade gênero na grade curricular escolar, busque ampliar o desenvolvimento cognitivo dos jovens nesse aspecto. Ademais, os colégios devem promover palestas aos pais, com o intuito de difundir o conhecimento amplo acerca da temática e criar campanhas no combate às formas indiretas de transfobia no ambiente escolar. Espera-se, com tais medidas, distanciar-se do cenário sombrio de “Garota Dinamarquesa”.