Alternativas para reduzir o analfabetismo funcional no Brasil
Enviada em 28/04/2020
Livros negligenciados
Macabéa, apesar de ser datilógrafa, além dos erros ortográficos que cometia, não sabia interpretar o que escrevia e nem mesmo a realidade à sua volta. Eis uma pequena contextualização da obra “A hora da Estrela” da escritora Clarice Lispector que exemplifica, ainda que publicada em 1977, o analfabetismo funcional histórico existente no Brasil. Nesse sentido, evidencia-se a negligência estatal frente o ensino básico e o descaso com a literatura na era moderna, fatos que embargam a redução dessa problemática e carecem de alternativas para atenuar essa realidade.
Primeiramente, sabe-se que a falta de investimentos em educação pública limita os recursos das escolas e faz com que haja pressa na alfabetização do aluno. Além disso, em algumas ocasiões, o professor é coagido pelas famílias para conceder aprovação à criança e, situações como essas, favorecem o analfabetismo funcional, uma vez que é conquistado o diploma de alfabetização sem a devida qualidade no ensino. Diante disso, ainda que haja saber na leitura, há carência na interpretação, muitas vezes de textos simples, trazendo como consequência a manipulação das massas por parte de políticos, patrões e vendedores, que se aproveitam dessa condição para obterem vantagem.
Ademais, após a Terceira Revolução Industrial, a tecnologia passou a fazer parte do cotidiano das famílias brasileiras. Sendo assim, desde a infância, as crianças recebem de seus pais eletrônicos, que são, inúmeras vezes, substitutos dos livros. Sob esse prisma, não é cativado no estudante primário o hábito de ler, o que gera o déficit na interpretação de textos, característica do analfabetismo funcional. Não obstante, deve-se, ainda, atribuir à União responsabilidade pela falta de prática literária entre os brasileiros, pois, desde o século passado, houve limitação no incentivo à educação, tendo o exílio sofrido pelo educador e filósofo Paulo Freire como evidência do desinteresse do Estado nesse setor.
Pode-se perceber, portanto, que o analfabetismo funcional, de fato, compõe a sociedade brasileira e não é uma problemática recente. Dessa forma, é imprescindível que o Ministério da Educação e Cultura organize, com a disponibilização de verbas por parte do Governo Federal, feiras literárias gratuitas em todo o país, com o auxílio de professores que abordem a importância da leitura e incentivem essa prática, havendo também a distribuição de exemplares, a fim de despertar o interesse da criança pelos livros que são, muitas vezes, negligenciados. Assim, somando maior investimento do Estado na área educacional juntamente com o incentivo ao estudo e à leitura, poderá haver a mitigação da alfabetização incompleta impregnada na realidade nacional concomitantemente ao abrandamento da manipulação por grupos que se aproveitam dessa condição.