Alternativas para reduzir o analfabetismo funcional no Brasil
Enviada em 30/12/2020
“Professor”, personagem da obra fictícia Capitães da Areia do escritor Jorge Amado, encontrava na leitura de obras históricas o vislumbre de uma vida melhor que de um garoto de rua, excluído da sociedade, na qual vivia. Fora da ficção, contudo, muitos brasileiros não possuem essa capacidade de abstração no ato de ler, haja vista o alto índice de analfabetismo funcional no país, o qual compromete a interpretação dos textos. Essa realidade é reflexo da educação excessivamente conservadora das escolas, bem como da escassez dos espaços de leitura no país.
Em primeira análise, é preciso ponderar o papel das instituições de ensino na manutenção dessa preocupante conjuntura pedagógica nacional. Para Paulo Freire, educador brasileiro, em sua obra “A Importância do Ato de Ler”, a leitura do mundo precede a da palavra, o que exige a atuação dos sujeitos na construção do saber. Assim, fica evidente que o processo de ensino frequentemente conservador das escolas brasileiras - pautado na resolução de provas e de exercícios dos textos lidos em classe - não estimula uma interpretação associativa com a realidade nos discentes. Como resultado, diferente do personagem “Professor”, forma-se uma massa estudantil com dificuldade em compreender as obras literárias lidas, com baixa capacacidade de abstração ante a sua falta de protaginismo no ato de ler.
Outrossim, a escassez de espaços para a análise textual potencializa esse quadro. Segundo reportagem exibida pelo programa televisivo Fantástico, as escolas brasileiras, especialmente as públicas, carecem de grupos de leitura entre os estudantes. Desse modo, o contato dos alunos com livros torna-se limitado às salas de aula, o que dificulta o compartilhamento das diversas interpretações entre os discentes e reforça a decodificação de forma automática e utilitária - voltada para a solução de atividades. Esses fatores ampliam as taxas de analfebetismo funcional, uma vez que inviabiliza o desenvolvimento do processo de compreensão autônoma e autossuficiente na sociedade.
Diante disso, urge que o Estado brasileiro estabeleça alternativas para ampliar a capacidade interpretativa da população. Destarte, o Ministério da Educação (MEC), em parceria com as Secretarias Municipais de Educação, deve, mediante uma política nacional de incentivo à leitura, ampliar os cursos formativos direcionados para a interpretação de textos para professores, como “workshops” de capacitação, a fim de estimular a leitura participativa dos discentes. Cabe, ainda, ao MEC e ao Ministério da Cidadania a aberturra de espaços de análise textual, como rodas de leituras nas escolas, por meio de campanhas pedagógicas nos colégios e publicidade na rede televisiva e digital para reduzir o analfabetismo funcional. Dessa forma, pode-se construir um país de leitores autônomos.