Ampliação de políticas públicas na busca por pessoas desaparecidas no Brasil
Enviada em 26/10/2019
Em meados do século XX, o artista plástico Cândido Portinari retratou, na obra “Os retirantes”, uma família que sai de uma região a outra em busca de condições melhores de vida. Com o objetivo de evidenciar o cotidiano do Brasil, o autor denuncia os problemas sociais do país. Semelhante ao cenário, muitos brasileiros protagonizam, hodiernamente, uma peregrinação em busca de pessoas desaparecidas. As demandas para findar o descaso com as famílias que sofrem com essa situação, no entanto, são deturpadas devido à inobservância governamental e à lenta mudança da mentalidade social intrínsecas ao impasse.
A princípio, a negligência do Estado é um fator relevante quando se observa os crescentes índices de pessoas desaparecidas. Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”, afirma que um governante tente a tomar decisões que mantenham sua posição de liderança. Tendo isso em vista, é esperado que tal reivindicação, que possui pouco apelo eleitoral, ganhe menos investimentos do governo, uma vez que existem pautas mais populistas. Desse modo, o poder encontrado pelas autoridades ao se firmarem em seus cargos não os motiva em investir em políticas que ampliem as buscas por desaparecidos. Assim, a manutenção das posições dos gestores ocorre no Brasil às custas de muitas famílias desamparadas.
Outrossim, além do descaso do sistema governamental, há como agravante valores perpetuados na sociedade brasileira. Consoante a Teoria do Habitus, de Pierre Bourdieu, nossas práticas são resultado de condições culturais específicas de um corpo social. Dessarte, a desigualdade que persevera desde a antiguidade, corrobora a manutenção de assimetrias sociais. O maior envolvimento nas buscas por desaparecidos não alcança os mais pobres e necessitados, visto que a democratização desses processos não são convenientes para determinados grupos. Dessa forma, uma mudança nos valores da coletividade é essencial para que a segregação que afeta esses casos não seja um obstáculo a ser enfrentado ao longo das gerações.
Depreende-se, portanto, que a questão é grave e deve ser findada. Para isso, cabe ao Governo criar postos de coleta de informações específicos para a busca de cidadãos, que gere maior movimentação para que todos possam ajudar. Ademais, cabe à escola ampliar a visão de mundo do indivíduo por meio da inclusão de palestras e aulas específicas sobre como agir em casos de desaparecimento. Assim, os alunos serão instruídos a reconhecerem seu papel na ajuda da resolução do impasse, a fim de que, através da reflexão do ambiente, eles possam contribuir para mudanças e melhorias na sociedade. Dessa forma, será possível que as obras de Portinari não transmitam, ainda hoje, o Brasil do século XX.