As consequências da pirataria para a sociedade

Enviada em 24/05/2021

Henry Wickhan, homem relatado no livro “O ladrão no fim do mundo”, do jornalista Joe Jackson, ficou conhecido por ser o primeiro autor de um caso de biopirataria no mundo ao sequestrar mais de 70 mil sementes de seringueiras do Brasil e levá-las às colônias inglesas, o que impulsionou a maior produtora de látex do mundo do final do século XIX ao início de século XX na Ásia, e fez decrescer o ciclo da borracha na Amazônia. Fora desse caso, mas ainda na realidade brasileira que mantém a cultura da pirataria presente, visto que é naturalizada a fragmentação de valores éticos na sociedade, principalmente pelo governo que não estuda o perfil social que configura essa questão. Por isso, faz-se necessário analisar as consequências socioeconomias da pirataria no Brasil.

O primeiro aspecto a se considerar é, sem dúvidas, a romantização de problemas de cunho social age como um gatilho para manter a sociedade dispersa de sua realidade e com discursos de que não há consequências a um “pequeno” desvio. Isso acontece pois, ao invés de esferas com poderes governamentais verificarem a questão estrutural que leva parte da população brasileira à deturpação ética, acaba optando por soluções superficiais, como o bloqueio de sites, e não por educação coletiva que gere conhecimento a respeito do desfalque como maleficio coletivo. No que diz respeito a isso, o livro do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, faz uma análise da construção da criatividade, conhecida como “jeitinho brasileiro”, e que na verdade é um modelo de corrupção, confundido com solidariedade, pela dificuldade em lidar com situações rígidas e legais.

Para além disso, o Brasil ao seguir sufocando órgãos como a Agência Nacional do Cinema -que servia de ponte entre estímulos de agentes privados e planos de diminuição de preços em cinemas, bem como queda da pirataria- segue a linha “Bovarista à brasileira”, diagnosticada pela estudiosa Maria Rita Kehl, que é viver insatisfações social e econômica com os trilhos do país, mas não investir em contruções contínuas que reformulem a película do Brasil. Isso vai contra países como Índia, também emergente, mas que hoje lidera a maior produção de cinema do mundo e, não menos importante, conseguiu baratear os valores de ingressos, sendo os mais baratos do mundo.

Destarte, para as consequências da pirataria diminuírem no país, medidas devem ser seguidas. O Governo Federal, através das Secretarias de Cultura, deve fazer rodas coletivas de abordagem à pirataria em auditórios comunitários, com profissionais de educação coletiva, para informar os problemas por trás das condutas ilegais. Além disso, ainda o Governo Federal, que sabe da importância da ANCINE como o único órgão regulador que une a indústria à cultura, precisa voltar a reconhecer a agência como um ponte que pode diminuir o processo de pirataria no país.