As dificuldades das crianças com distúrbio de aprendizagem de se inserirem na escola

Enviada em 25/05/2020

Na década de 60, Pierre Bourdier destacava a situação dos “excluídos do interior”, ou aqueles estudantes incluídos no sistema educacional francês mas que, por falta de capital escolar, cultural e social estariam destinados ao fracasso nos estudos e suas consequências. Partindo disso, é possível afirmar que no Brasil, hoje, para além das questões macro, e talvez em relação íntima com elas, os transtornos de aprendizagem não diagnosticados também são obstáculos para o percurso estudantil de grande parte dos cidadãos.

O filme “Como estrelas na Terra” apresenta a história de um menino que tinha dificuldades nos estudos e que era visto como preguiçoso, mas que pôde começar a se desenvolver apenas depois de ser diagnosticado como disléxico, processo, esse, fruto do olhar empático de um de seus professores. Apesar de ambientado na Índia, o longa metragem diz muito da realidade do sistema educacional brasileiro que, ao mesmo tempo em que inclui um número cada vez maior de pessoas, não é estruturado de modo a efetivamente possibilitar seu acompanhamento individual.

Em consonância com isso, estudos apontam que cerca de 70% da população possui algum tipo de transtorno específico de leitura e escrita. Paralelamente, porém, dados da Associação Brasileira de Dislexia apontam que 89% dos diagnosticados no Brasil, entre 2013 e 2018, provinham de escolas particulares, e somente 11% da rede pública. Esses dados apontam para uma subnotificação gritante dessa dificuldade específica nas instituições de ensino que servem às famílias mais empobrecidas, e isso não deve ser diferente com questões sobre as quais a produção científica ainda é incipiente, como a discalculia, por exemplo.

Para resolver tal situação, portanto, é preciso que o diagnóstico de tais transtornos de aprendizagem seja feito nos anos iniciais do sistema público de ensino, acompanhado de um trabalho personalizado que evite futuras defasagens. Isso deveria ser feito pelas próprias escolas, que necessitariam, em contrapartida, de uma equipe especializada, com número suficiente de profissionais de diferentes áreas, como pedagogos, assistentes sociais, fonoaudiólogos e psicólogos, além de suporte financeiro e autonomia para testar, diagnosticar e acompanhar cada caso identificado. Isso é necessário para que o vínculo e a continuidade do trabalho não se percam com os anos, e os recursos para tal deveriam provir do Ministério da Educação, com o apoio operacional das secretais estaduais e municipais de educação. Dessa maneira, seria possível não somente aumentar o rendimento médio dos estudantes brasileiros, diminuindo índices de repetência, evasão escolar e analfabetismo funcional, mas também promover uma efetiva inclusão.