As dificuldades do acolhimento de refugiados
Enviada em 12/08/2021
O precário acolhimento aos refugiados cerceia o pensamento de que este país é antagônico devido a suas raízes formadoras, como refletiu o psicanalista Roberto Gambini na obra “Outros Quinhentos”. Esta mesma assertiva é análoga a Macunaíma – personagem de Mário de Andrade –, ao representar a metáfora de um brasileiro sem natureza definida. Nesse viés e com base no presente, questões estruturais da sociedade, como a falta de programas políticos e sociais e os problemas de adaptação cultural, ainda são tratadas sem visibilidade. É nesse cenário, então, que se delineia a discussão sobre os desafios em lidar com a entrada de refugiados no país.
Certamente, a ausência de programas políticos e sociais ilustram o pensamento de Roberto Gambini, pois a falta de identidade política torna-se latente diante das dificuldades da inserção do refugiado no país. Nessa perspectiva, irrefutavelmente, o refugiado acaba por estar às margens do Brasil, se inserindo em periferias, sem qualquer tipo de assistência governamental. Não obstante, os pedidos de refúgio aumentaram em 930% de acordo com a agência responsável por refugiados no país, a ACNUR. Assim, a principal consequência é o desamparo estatal ao refugiado, mostrando que a sociedade brasileira não existe em função do auxílio ao necessitado. Nesse contexto, concede-se razão a Gambini, visto que o Brasil permanece ainda colonizado no início da história daqueles quinhentos anos.
No que concerne às relações sociais, o impacto é maior em relação à adaptação cultural desse povo. Por esse ângulo, a falta de receptividade do brasileiro é a fórmula do desastre. Ao contrário do que se espera da receptividade brasileira, o refugiado é recebido mediante a xenofobia da população, que em muitos casos não consegue respeitar a cultura alheia. Esse desrespeito pode ser notado em diversas obras, como no longa metragem Sérgio. Deve-se garantir, então, que não sejam necessários “outros quinhentos anos” para que o brasileiro tenha a conscientização necessária para lidar com as diferenças culturais e sociais desses povos.
Portanto, é preciso uma intervenção objetivando a inserção social do refugiado no país. É imprescindível a criação de uma plataforma de fácil acesso ao governo, financiada pelo Ministério da Cidadania, com o intuito de criar e monitorar programas de auxílio aos refugiados. Essas ações devem ser tomadas visando a inserção dessas pessoas na sociedade. Além disso, essa plataforma deve impulsionar uma campanha nas redes sociais populares, de modo a favorecer a divulgação de informações acerca do respeito à cultura e aos direitos humanos. Desse modo, o Brasil se distanciará da personalidade de “herói sem caráter” de Macunaíma, quebrando paradigmas e alcançando a isonomia social.