As dificuldades do acolhimento de refugiados

Enviada em 06/10/2021

A Santa Inquisição foi uma instituição jurídica da Igreja Católica Romana responsável por perseguir, julgar e condenar aqueles considerados hereges ou praticantes de doutrinas contrárias aos dogmas católicos. Sob esse viés, o Brasil recebeu incontáveis imigrantes que fugiam do rigor desse órgão religioso. De forma análoga, quando é vislumbrada a atmosfera dos entraves no acolhimento aos refugiados, o quadro mostra-se preocupante. Nesse sentido, tanto a xenofobia, quanto o abandono social, no que tange à falta de assistência do Estado, corroboram a permanência da problemática.

Em primeira análise, cabe pontuar o impacto da manutenção de uma ótica restrita e preconceituosa na persistência do imbróglio. Conforme o sociólogo contemporâneo Manuel Castells, a insegurança da sociedade moderna, inserida no contexto globalizado, possibilita o desenvolvimento de comunidades oclusas, caracterizadas por crenças únicas. Nesse panorama, em consonância com as ideias do autor, as práticas xenofóbicas revelam a face obscura do atual corpo coletivo, uma vez que viabilizam o vergonhoso processo de exclusão dos refugiados e infringem violentamente os direitos humanos dessa parcela da comunidade mundial. Com isso, os cidadãos, dotados de uma perspectiva intolerante, fomentam o fenômeno de rejeição à presença desses indivíduos.

Ademais, é imperativo pontuar o desamparo social vivenciado por esse grupo como um dos fatores que validam o estorvo. A série sul-coreana “Round 6”, disponível na plataforma digital Netflix, remonta a vida conturbada de um refugiado paquistanês que, em virtude da péssima qualidade de vida no novo país, participa de uma competição desumana na promessa de um prêmio bilionário. Fora da ficção, paralelamente à obra abordada, é notório como o cenário socioeconômico da porção populacional expatriada reflete a carência de suporte governamental, no que se refere ao oferecimento de condições básica de sobrevivência, a exemplo de moradia e acesso democrático ao mercado de trabalho. Dessa maneira, as desigualdades, aliada ao preconceito, favorecem a marginalização desse núcleo.

Verifica-se, portanto, a necessidade de medidas capazes de minimizar essa triste realidade. Para tanto, é imprescindível que o Governo Federal, em parceira com Organizações Não Governamentais, monte estratégias que objetivem diminuir a xenofobia em relação a essas pessoas, por meio de campanhas publicitárias e de projetos de assistencialismo, que visem a promoção à inclusão nacional desse grupo. Outrossim, urge que o Ministério do Trabalho garanta os direitos mínimos desses indivíduos, auxiliando, por exemplo, na procura por emprego, por meio da verificação de currículos e habilidades pessoais, com o fito de promover a inserção social dos expatriados no país. Destarte, será possível desconstruir as retrógradas amarras sociais passada historicamente pela Santa Inquisição.