As relações pessoais em tempos de modernidade líquida
Enviada em 11/09/2019
O deveras racional é prejudicial
Clarice Lispector, em seu livro “Laços de Família”, descreve o relacionamento forjado por normas sociais, e não pelo afeto, que ronda a vida da personagem. Talvez hoje ela perceba o quão semelhante ao seu livro a sociedade está: o enfraquecimento das ligações que antes uniam as pessoas revela um dos pontos principais na conceituação da chamada Modernidade Líquida. Com isso, surge a problemática da diminuição dos convívios intermitentes, em vista das relações passageiras descompromissadas, contribuindo para o aumento dos casos de depressão e ansiedade na população.
É indubitável que a questão das transformações constantes dos conceitos da sociedade contemporânea esteja entre as causas do problema. Conforme o sociólogo Zygmunt Bauman, o termo “amor líquido” é a definição que corrobora para o entendimento da angústia humana, por um lado, muitos querem ter uma vida estável, por outro, as pessoas querem viver sem responsabilidades. De maneira análoga, percebe-se que a situação dos relacionamentos brasileiros tende para o mesmo lado, haja vista que o jeito “livre” de ser é incentivado inclusive pela mídia, basta reparar nas letras de canções atuais para perceber o quanto a “ostentação” e a “liberdade” prevalecem, mesmo na hora de se descrever o amor.
Outrossim, segundo pesquisas da Organização Mundial da Saúde, o Brasil lidera o ranking mundial de pessoas com ansiedade e depressão, com 9,3% da população diagnosticada com a doença. Ainda segundo o estudo, cerca de metade desses casos são causados por problemas conjugais e escolares, sendo os jovens os mais afetados. Ao seguir tais fatos, percebe-se que a constante mudança no modo de se relacionar e em como se planeja o futuro têm impactos negativos sob as futuras gerações, na qual a estabilidade financeira e amorosa é ensinada como um ideal, que peca por ser inalcançável. A brevidade das relações entre jovens, portanto, promove uma mudança radical no paradigma atual, transformando valores antigos em objetos antiquados e incompreensíveis, que já não fazem parte da realidade moderna.
Infere-se, portanto, que a liquidez do mundo presente é uma consequência da mudança da mentalidade das pessoas nas últimas décadas. Sendo assim, cabe às Secretarias de Educação Municipais inserir na grade horária dos alunos temas que abordem o cotidiano das relações atuais em comparação com os padrões societários antigos, ensinando-os a lidar com diversos problemas do mundo moderno. Assim, os cidadãos do país poderão crescer conscientes de que o modo como pensam é uma configuração adquirida a partir da racionalização da sociedade, reduzindo o aspecto angustiante inerente à modernidade que provoca distúrbios de depressão e ansiedade em quase 10% da população.