As relações pessoais em tempos de modernidade líquida

Enviada em 05/07/2020

O episódio “Queda Livre” da série Black Mirror apresenta uma sociedade composta por indivíduos que se avaliam durante todo o tempo. Essas avaliações definem a forma de vida dessas pessoas e tornam as relações interpessoais fugazes, estabelecidas na expectativa de receber uma boa nota. Fora da ficção, é possível associar essa situação ao conceito do sociólogo Zygmunt Bauman: a modernidade líquida, caracterizada pela nova época em que os vínculos sociais são maleáveis como os líquidos. Nesse contexto, a frivolidade das relações traz consequências negativas para a vida em sociedade.

Em primeiro lugar, constata-se que três são as principais causas do interregno vivido na contemporaneidade, ou seja, momento em que o modelo cultural a ser seguido é indefinido: as mudanças ocorridas após a Segunda Guerra Mundial, o mundo globalizado e as redes sociais. A primeira delas caracteriza-se pela instabilidade no âmbito político, econômico e social. Já a segunda, consiste no incentivo ao consumo exacerbado, propicia a concessão de um valor sentimental à mercadoria e explicita a inversão de valores morais. Por último, as redes sociais impulsionam a necessidade e a busca incansável pela aceitação nos meios digitais e facilitam a liquidez citada por Bauman. Nesse sentido, essa situação precisa ser revertida.

Em segundo lugar, é possível constatar que diversas são as consequências da forma frágil que as relações se estabelecem. Entre elas, encontra-se o aumento do número de pessoas com distúrbios psicológicos, como depressão e ansiedade. Segundo dados da Organização das Nações Unidas, o Brasil é o quinto país com o maior número de pessoas com depressão. Além disso, 9,3% dos brasileiros apresentam algum transtorno de ansiedade. Outrossim, observa-se não só a troca da coletividade pelo individualismo, onde a importância atribuída às próprias necessidades é maior do que a destinada à necessidade coletiva, mas também, a transformação do cidadão, na modernidade líquida, em um mero consumidor. Nessa perspectiva, esse quadro precisa ser alterado.

Portanto, urge que a fugacidade das relações sociais seja combatida na prática efetiva. Cabe ao Ministério da Saúde essa função, por intermédio da criação de campanhas que incentivem o acompanhamento psicológico visando assegurar a saúde mental da população e diminuir os altos índices de ansiedade e depressão; com o auxílio do Ministério da Educação para o desenvolvimento de projetos que evidenciem a importância de se estabelecer relações sólidas e duradouras e as consequências da frivolidade dos vínculos. Essas medidas, casos feitas em conjunto, podem amenizar as consequências da modernidade líquida no Brasil.