As relações pessoais em tempos de modernidade líquida

Enviada em 03/06/2024

O conceito de modernidade líquida proposto pelo sociólogo Zygmunt Bauman descreve uma condição atual da sociedade onde o uso excessivo da tecnologia e a fluidez das relações, nos mais diversos aspectos, prejudicam a criação e manutenção de laços sociais afetivos. Nesse contexto, as interações humanas sofrem modificações constantes, em que as relações pessoais assumem um modelo em que a quantidade é superior à qualidade. Diante disso, o principal desafio da sociedade atual, está em criar conexões mais verdadeiras em meio a uma realidade que promove distrações a todo momento.

A série “Black Mirror” ilustra a liquidez e as desconexões em um mundo hiperconectado. Em um futuro distópico, a série provoca reflexões sobre os impactos das redes sociais e da dependência tecnológica em nossas relações. Apesar de parecer ficcional e longe da nossa realidade, esses impactos podem ser observados diariamente e em diversos âmbitos das nossas conexões.

Nas relações familiares, por exemplo, podemos perceber a substituição dos contatos físicos cotidianos pelo distanciamento tecnológico e o isolamento entre as paredes de um mesmo ambiente. Cada indivíduo vive em seu próprio “quadrado”. Nos laços de amizade, os impactos podem ser percebidos pelas conversas cada vez mais diretas e imediatas e nos contatos somente através de telas, estimulando conexões superficiais e descartáveis. No trabalho, onde passamos a maior parte do tempo, a busca pelo sucesso e as cobranças por produtividade, promovem um ambiente cada vez mais individualista e desestimulante, principalmente em home office - modalidade desenvolvida durante a pandemia e mantida até hoje.

Sendo assim, as relações pessoais em tempos de modernidade líquida, ou melhor, no “novo normal”, estão mais desafiadoras, mas não são impossíveis de serem cultivadas de forma sólida. Portanto, cabe ao governo, investir em programas de apoio, estratégias de abordagem de inteligência emocional para jovens e promoção de ambientes públicos que permitam as trocas sociais. Além disso, cabe a cada indivíduo, o fortalecimento dos laços individuais e o desenvolvimento de práticas para criarmos conexões mais verdadeiras em meio a uma pressão social e tecnológica que promove distrações a todo momento.