Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 18/09/2019

René Descartes, em seu método cartesiano, defendia a dúvida hiperbólica pela justificativa de que os sentidos são enganosos e somente a racionalidade seria capaz de gerar conhecimento. Ao relacionar esse parâmetro ao cenário atual da automedicação, percebe-se que a busca por fontes concretas e eficazes na maioria das vezes não são priorizadas,  seja por questões culturais, seja pela negligência governamental. Diante disso, ao tomar decisões prévias e sem nenhum acompanhamento profissional, os indivíduos estão sujeitos à inúmeras consequências.

A princípio, é crucial destacar que apesar de o hábito de se automedicar ser inerente à cultura brasileira, a inércia do Estado intensifica esse problema na sociedade. O famoso “jeitinho brasileiro”, expressão criada pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, representa a maneira que os indivíduos possuem de improvisar soluções para os problemas. Somado a isso, a precariedade do sistema público de saúde que se deve, principalmente, pela falta de profissionais e a demora em marcar consultas contribuem para a recorrência de alternativas práticas. Nesse sentido, a facilidade em comprar medicamentos sem prescrição médica devido a falta de fiscalização, se encontra como a alternativa mais utilizada, uma vez que, segundo o Instituto de Pesquisa Hibou, mais de 90% das pessoas aderem tal atitude que, apesar de se mostrar funcional, apresenta diversos efeitos negativos.

Dentre outras consequências dessa conjuntura, a intoxicação surge como a mais expressiva. Isso porque, o consumo de medicamentos sem nenhum diagnóstico é capaz de gerar efeitos colaterais ao organismo como reações alérgicas e até a morte, sendo que, de acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas, só em 2012 houve mais de 8 mil mortes causadas por tal atitude. Além do mais, o uso de antibióticos sem acompanhamento médico impossibilita o controle do tratamento e, apesar de destruir grande parte das bactérias do organismo, consoante à teoria da seleção natural proposta por Charles Darwin, as mais fortes podem sobreviver, o que aumenta a resistência dos microrganismos e dificulta cada vez mais a cura da doença.

Logo, diante do exposto, é possível verificar que a automedicação gera diversas consequências aos indivíduos. Dessa forma, no intuito de diminuir essa prática, é necessário de o Ministério da Saúde minimize a precariedade dos atendimentos básicos, mediante o aumento do número de médicos, a fim de melhorar o acesso à consultas . Outrossim, é preciso que a mídia conscientize os indivíduos sobre os riscos da falta de prescrição e diagnóstico, por meio de “posts” nas redes sociais e de propagandas televisivas, no intuito de erradicar os casos de intoxicação. Dessa forma, o “jeitinho brasileiro” adquirirá características mais responsáveis e eficientes.