Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 21/09/2019

Traquejo atemporal

“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que não veem, cegos que, vendo, não veem”. O excerto do romance “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, critica, por meio do uso de metáforas a alienação de uma sociedade que se torna invisual. Fora do universo literário, tal obra atemporal não foge da cegueira contemporânea, na qual o tecido social brasileiro não o problema da automedicação. Nesse aspecto, dois fatores são relevantes: a inobservância governamental e a questão cultural.

Em primeiro plano, convém frisar que o descaso estatal promove subterfúgio ao quadro vigente. Nesse ínterim, John Locke, afirmou o papel do Estado em garantir saúde, educação e segurança a todos. Contudo, a prática deturpa a teoria, uma vez que o governo falha quando não investe na área de saúde para que os profissionais capacitados possam atender e prescrever medicações aos pacientes, principalmente em áreas com poucos hospitais e clínicas médicas como ocorre em algumas cidades pequenas, segundo o site G1 Dessa forma, é inadmissível que com as altas taxas de impostos e tributos cobrados no Brasil o poder público não seja capaz de oferecer uma saúde digna à população.

Em segundo plano, não obstante, bases intrínsecas corroboram para a persistência da problemática. Nessa análise, desde a Idade Média era comum mulheres venderem chás de ervas medicinais para o tratamento de enfermidade, porém no XXI século, mesmo depois do avanço da medicina, uma grande malha social contínua consumindo remédios por conta própria. Além do engajamento do “Google” usado de maneira equivocada para substituir o médico. Em consoante a isso, faz-se necessário a analogia da obra O Abapuru, da modernista Tarsila do Amaral, em que, para a autora, a cabeça pequena simboliza a falta de criticidade do ser humano. Dessa maneira, baseadas em pensamentos errôneos acerca do tema, é inaceitável que a esfera social fique passível de soluções e cada vez mais as pessoas se tornem parte dessa obra.

Infere-se, portanto, que a automedicação representa um desafio a ser enfrentado na nação verde-amarela. Para tanto, cabem as escolas, por serem formadoras de opiniões, em conjunto com o Ministério da Saúde, criarem uma campanha de conscientização de combate ao uso de medicamentos sem a supervisão de um profissional de saúde, por intermédio de uma fabula em forma de cartilha que aborde o que fazer antes de consumir uma medicação, distribuída para toda a esfera social. Para mais, é mister que o mesmo ministério dificulte a vende de substâncias químicas nas farmácias sem a receita médica. Desse modo, a cegueira dita por Saramago será combatida.