Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 05/10/2019

Traquejo atemporal

“Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, cegos que não veem, cegos que, vendo, não veem”. O excerto do romance modernista “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago critica, por meio do uso de metáforas, a alienação de uma sociedade que se torna invisual. Fora do universo literário, tal obra atemporal não foge da cegueira contemporânea, na qual a população brasileira não enxerga o problema da automedicação. Nesse aspecto, dois fatores são relevantes: a inobservância governamental e a questão cultural.

Em primeiro plano, convém frisar que o descaso estatal promove subterfúgio ao quadro vigente. Nesse ínterim, John Locke, afirmou o papel do Estado de garantir saúde, educação e segurança para todos. Contudo, a prática deturpa a teoria, uma vez que o governo falha quando não investe na área da saúde para que os profissionais capacitados possam atender e prescrever medicações aos pacientes, principalmente em áreas com poucos hospitais e clínicas médicas como ocorre em algumas cidades pequenas. Outrossim, segundo o site G1, o Brasil é uns dos países que mais faltam atendimento médico.  Dessa forma, é inadmissível que com as altas taxas de impostos e tributos cobrados no país o poder público não seja capaz de oferecer uma saúde de qualidade para a população.

Em segundo plano, não obstante, a herança histórico-cultural potencializa a problemática. Isso ocorre desde os hábitos coloniais em que a saúde era remediada por boticários sem nenhuma base científica. Em consoante a isso, faz-se necessário a analogia com o quadro “O Abapuru”, da modernista Tarsila do Amaral, em que para a autora a cabeça pequena representa a falta de criticidade do homem. Dessa maneira, baseados em pensamentos errôneos acerca do tema, é inaceitável que a esfera social fique passível de soluções e cada vez mais as pessoas se tornem parte dessa obra.

Infere-se, portanto, que a automedicação na nação verde amarela representa um desafio a ser combatido. Para tanto, cabem as escolas, por serem instituições formadoras de opiniões, em parceria com o Ministério da Saúde, criarem uma campanha de conscientização para combater o uso de medicamentos sem a orientação de um profissional de saúde, por intermédio de uma fabula em forma de cartilha que aborde os passos necessários para fazer antes de tomar qualquer medicação. Para mais, é necessário que o governo distribua essa cartilha em farmácias, hospitais e centros comunitários. Além disso, é mister que o mesmo ministério fiscalize e/ou prendam pessoas que vendam substâncias químicas sem a receita médica. Dessa maneira, a cegueira dita por Saramago será combatida no Brasil.