Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 01/11/2019

Faca de dois gumes

Volátil. Incerto. Complexo. Ambíguo. Essas são as palavras que caracterizam o mundo VUCA, termo surgido durante o século XX, e que busca definir o meio atual e seus novos fenômenos sociais. Infelizmente, esse contexto ganhou espaço na automedicação popular, que influenciada pelo marketing farmacêutico e o sucateamento do sistema público de saúde, ganhou proporções de risco. Reverter esse quadro em busca de ampliar os direitos individuais - eis a missão de um país que se diz democrático.

É válido considerar, antes de tudo, que a automedicação é permeada por questões fundamentalmente culturais. De fato, a Globalização fez surgir diversos avanços tecnológicos na área de pesquisas individuais. Entre elas está a contínua expansão da internet, que propiciou a realização de uma medicação autônoma, baseada em dados da rede virtual. Somado a isso, a demora e o instável atendimento público de saúde - que não possui estrutura para lidar com a velocidade com que as pessoas administram seu tempo, só favorece a atuação das propagandas farmacêuticas. Visto que, permeadas por teses foucaultianas, presente em seu livro: a Microfísica do Poder, e que buscam por meio de mecanismos ideológicos nas relações interpessoais convencerem a população de sua autossuficiência médica e seu controle de diversos sintomas.

Cabe apontar também, que a automedicação não é contraindicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Contudo, o que ocorre é um uso indiscriminado e irresponsável da população. De acordo com o Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), quase 70% da população brasileira faz uso da medicação autônoma, o que torna o país um campeão em intoxicações. Dessa maneira, esse problema de saúde pública se apresenta como uma faca de dois gumes, em que, ao mesmo tempo em que é isento de prescrição médica, não é isento de riscos ao usuário e vem recheado de efeitos colaterais.

Fica evidente, portanto, que a automedicação está sendo praticada de maneira indevida e precisa ser reconhecida e controlada. Logo, o Tribunal de Justiça do Trabalho (TJT), com o objetivo de controlar este uso abusivo, deve, em curto prazo, aumentar a fiscalização sobre as farmácias e retenção de receitas, ao mesmo tempo em que aplica multas mais rigorosas àquelas que vendem sem prescrição. Além disso, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) pode, por intermédio de campanhas escolares, trabalhar as consequências da medicação autônoma com os jovens, no qual, mediante profissionais da saúde, se reforce a necessidade da consulta com uma pessoa qualificada. A fim de que, a ação conjunta desses órgãos, catalisem mudanças sociais e sustentem a saúde neste mundo VUCA.