Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 24/10/2019
Parafraseando Isaac Newton, um corpo não terá seu movimento alterado a menos que forças externas consideráveis ajam sobre ele, sobressaindo sua inércia. Esse é, infelizmente, o hodierno cenário da automedicação no século XXI: uma inércia que perdura em detrimento da escassez de médicos, além da substituição de profissionais habilitados pelo site mais acessado do mundo, o Google. Sendo assim, convém analisar os principais pilares dessa chaga social.
Vale ressaltar, a princípio, que, segundo o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, há quatro vezes mais médicos nas capitais do Brasil em comparação ao interior dos estados, dados como esses refletem uma irregular distribuição de profissionais e a dificuldade ao acesso à informação por grande parte da população. Por conseguinte, a automedicação anda intrinsecamente ligada a tal defasagem trazendo prejuízos à saúde dos interioranos, rebelando que direitos assegurados na Carta Magna, como o acesso à higidez, fiquem somente no papel. Sob essa ótica, o sociólogo Jessé Souza afirma que muitos são os brasileiros em condição de “subcidadania”, isto é, eles possuem, em tese, direitos, mas, na prática, estão alheios de usufruí-los, favorecendo na formação de um problema social com dimensões cada vez maiores.
Faz mister, ainda, salientar a subordinação da sociedade à era digital como impulsionador do problema exposto. Outrossim, Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, relatou em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu para criatura sequer o legado de nossa miséria; possivelmente, hoje, ele percebesse quão certeira foi sua decisão: a atual conjuntura da submissão do corpo social perante a tecnologia é uma das faces mais lamentáveis do âmbito nacional. Dessa forma, o acesso desenfreado às informações dispostas no Google dá a população uma falsa sensação de conhecimento, ficando alheia aos profissionais que se especializaram na prevenção e cura de doenças; tal feito pode ocasionar na resistência aos antibióticos e antivirais, promovendo o agravamento do caso clínico dos enfermos e, também, ao óbito.
Destarte, forças externas suficientes devem tornar efetivas vencendo a inércia proposta por Newton. Assim sendo, o Governo Federal deve fortificar investimentos no deslocamento de profissionais da saúde, como médicos e enfermeiros, para áreas interioranas por meio de campanhas e bônus salarial, a fim de ampliar o acesso à saúde de qualidade. Além disso, é necessário que o Ministério da Saúde invista em uma ampla divulgação midiática, que inclua entrevistas em jornais e propagandas televisivas, com debates entre médicos, alertando a população sobre a necessidade de consultas presenciais com profissionais habilitados, pois como referido por Karl Marx: “as inquietudes são a locomotiva da nação”.