Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 01/11/2019
“Nós não somos cegos, mas nós não vemos.” Tal assertiva sintetiza bem a metáfora da obra “Ensaio sobre a cegueira”, do autor José Saramago. Um conto que distópico em que os únicos protagonistas são uma mulher que empresta seus olhos ao seu marido para ajudá-lo em tudo. Todavia, na contemporaneidade essa “cegueira” situa-se no amparo da problemática da automedicação, em que ao passo que contribui para o cuidado com a saúde, pode trazer efeitos danosos. Ora, a sociedade permanece passiva as contra-indicações.
Nessa perspectiva, vale salientar que o mundo globalizado e acrescido de uma cultura rápida, corrobora para uma ilusão de uso correto de medicamentos. Dessa forma, o contorno das relações do século XXI, desenvolve a insastifação com o serviço público de saúde, caracterizado pela morosidade do atendimento. Conforme já apregoava Zygmunt Bauman, em sua ilustre obra “Modernidade Liquida”, vive-se relações pautadas na fluidez e rapidez, desapegadas de compromisso e voltadas ao consumo. Nesse sentido, os brasileiros, movidos pela inpaciência e correria cotidiana, optam por não “gastar tempo” em filas de consultórios médicos, submetendo-se ao perigo da automedicação _ eis o afugentamento da mazela.
Ademais, outro fator de entrave é à ausência de concepções no meio social e uma adequação governamental plena no tocante à temática. Como já afirmava Sérgio Buarque de Holanda, em sua obra “Raízes do Brasil”, o Estado é visto como um pai para os brasileiros, e atrelam total responsabilidade das questões políticos-sociais ao domínio político. Desse modo, paralelo às garantias do gestor público, surge a utilidade de ações conjuntas com a coletividade, de modo a gerir um conhecimento critico sobre os riscos da autoimunização, para amenizar a manipulação da ingestão indiscriminada de medicação em 42% no Brasil, ilustrados pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTD). De fato, urge a imposição de cautela para evitar o descaminho da saúde.
Depreende-se, portanto, que a mazela da automedicação seja mitigada. Logo, torna-se significativo que a mídia promova campanhas publicitárias, por meio de redes sociais e televisão com médicos e farmacêuticos que alertem sobre os riscos de tal prática, a fim de instruir o cuidado do corpo coletivo. Outrossim, é o Poder Público que deve viabilizar incentivos estatais de forma plena para amenizar às precariedades no sistema de público de saúde (SUS), e fomentar projetos para o contato direto com o fármaco, por intermédio de palestras municipais nos postos ou ainda via internet com mensagens de cautela, com fito de viabilizar o bem-estar comunitário. Assim, a metáfora de José Saramago será apenas ficção.