Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 02/11/2019
No Egito Antigo, as práticas de saúde estavam inevitavelmente associadas à magia. Não havia distinção entre ciência e religião e, frequentemente, acreditava-se que as doenças haviam sido enviadas pelos deuses como uma espécie de castigo. Assim, os métodos indutivos e xamânicos, o hipnotismo e a interpretação de sonhos eram utilizados como mecanismos terapêuticos. Na atualidade, observa-se a correspondência das condutas egípcias com o emprego da automedicação, comumente utilizado pela população brasileira. Neste sentido, é fundamental que se discuta os fatores corroborantes a essa problemática.
Em primeiro lugar, observa-se a importância de analisar o problema sob um viés quantitativo. Um levantamento realizado pelo Instituto Ciência Tecnologia e Qualidade (ICTQ) revela que 76,4% dos brasileiros consomem medicamentos por conta própria. Ressalta-se, ainda que os adotantes dessa prática afirmaram confiar em indicações de remédios feitas pela família, amigos, colegas de trabalho ou vizinhos. Percebe-se, portanto, a influência do advento social na persistência da prática da automedicação. Assim, o problema deriva não somente da desinformação acerca do funcionamento dos fármacos, mas também da falta de um controle de vendas mais rígido.
Outrossim, é notório que a lentidão do sistema público de saúde e, consequentemente, o distanciamento entre médico e paciente contribuem para o agravamento da problemática. Uma reportagem publicada em junho de 2018, o Portal de Notícias G1 indicou que 45% dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) estão na fila de atendimento há mais de seis meses esperando apenas por uma simples consulta ou exame. Nesse sentido, a automedicação se concebe como uma tentativa de contornar a demora. Não obstante, a ausência do acompanhamento de um profissional qualificado pode gerar o agravamento da doença, o que retarda o tratamento.
Portanto, torna-se imprescindível a adoção de políticas mediadoras a fim de contornar essa realidade. Na busca pela segurança de todos os cidadãos, urge que o Ministério da Justiça fortaleça o controle da venda de medicamentos mediante a criação de um projeto de lei que realce os efeitos negativos da automedicação. A medida deverá contemplar, ainda, a garantia de um acesso mais rápido aos serviços de saúde por meio da implantação de clínicas ambulantes de atendimento com a utilização de investimentos e fundos estatais. Dessa forma, será possível desconstruir preceitos já consolidados, atenuar os impactos da automedicação na sociedade brasileira e, assim, caminhar em direção contrária às práticas nocivas.