Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 21/04/2020

Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de cegueira que atinge toda uma comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença do Estado e de parte da população frente à automedicação. Diante do exposto, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que circundam essa questão no país.

Antes de tudo, nota-se que o Poder Público mostra-se negligente ao permitir a automedicação. Como prova disso, vê-se uma omissão das instituições governamentais ao não promoverem a conscientização da população, uma vez que falta informar acerca das consequências advindas do uso indiscriminado de fármacos, visto que essa prática pode inibir sintomas de determinadas patologias, dificultando o diagnóstico de problemas mais sérios e, com isso, agravar o quadro clínico do paciente, bem como violar o direito à saúde desses. Sendo assim, verifica-se que o governo não tem propiciado o bem-estar de todos os cidadãos, desrespeitando os princípios fundamentais da Constituição Federal de 1988.

Ademais, observa-se que aceitar a falta de investimento no Sistema Único de Saúde (SUS) é banalizar o mal. Confirma-se isso pela apatia de parte da sociedade perante a falta de verbas para a ampliação do quadro de profissionais da área de saúde, o que tem permitido a superlotação das unidades de atendimento e influenciado que parte da população não procure a avaliação médica antes de fazer o uso de medicamentos. A naturalização desse fato corrobora os estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo do errado é resultado de um processo de massificação cultural

Evidencia-se, portanto, que a automedicação deve ser superada. Para isso, é necessário que o Ministério Público solicite ao Ministério da Saúde o desenvolvimento de projetos educativos, através de campanhas realizadas nas Unidades Básicas de Saúde, voltados a promover a consciência crítica da população acerca dos riscos advindos do uso indiscriminado de medicamentos e, com isso, evitar que o diagnóstico precoce de doenças mais graves seja comprometido. Ainda, é fundamental que Organizações Não Governamentais, através de veículos midiáticos, promovam campanhas de conscientização que visem estimular a mobilização coletiva em prol de exigir do Estado o maior direcionamento de verbas para o SUS, com o intuito de ampliar a capacidade de atendimento nas unidades de saúde, a fim de evitar que a população faça o uso de fármacos sem prescrição médica. Desse modo, seria possível “tratar a cegueira” acerca desse fenômeno.