Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 08/07/2020
O documentário “Take your pills” (“Tome suas pílulas”), disponível na plataforma de “streaming Netflix”, tematiza as diversas formas de “doping” comuns na sociedade atual: esportivo, acadêmico e laboral. Essa prática é mais uma manifestação de um comportamento recorrente na sociedade brasileira: o uso de medicação seja para sanar sintomas, seja para aumentar o desempenho sem a devida orientação médica. Considerando os diversos prejuízos individuais e coletivos causados por essa ingestão de medicamentos não supervisionada, é necessário que o governo e a sociedade civil se organizem para o combate à automedicação no Brasil.
Primeiramente, entre os fatores que conduzem a essa utilização inadequada de medicamentos, destaca-se a falta de acesso ao atendimento de saúde qualitativo e ágil. Considerando que, de acordo com o artigo 196 da Constituição Federal de 1988, a saúde é direito de todos e dever do Estado, observa-se a incompetência estatal em garantir a efetivação desse fundamento. Esse aspecto é intensificado pelo imediatismo que caracteriza a sociedade contemporânea na qual, inserida no sistema de produção capitalista, o trabalhador, frequentemente, se sente pressionado a apresentar um alto desempenho sem tempo, por exemplo, para o descanso ou, até mesmo, para a recuperação de sua saúde. Isso corresponde ao cenário descrito pelo filósofo contemporâneo Byung-chul Han em seu livro “Sociedade do cansaço” no qual afirma que se vive hoje a sociedade do desempenho. Consequentemente, esse cenário de excesso de positividade presente na contemporaneidade culmina na criação de um cenário em que a produtividade se torna um norte para os indivíduos, o que conduz a um abuso de substâncias farmacêuticas sem a prescrição médica adequada por parte, inclusive de jovens. Consoante o documentário acima citado, em alguns casos, esse quadro pode conduzir à intoxicação, a exemplo do abuso de paracetamol, substância hepatotóxica, ou seja, maléfica ao fígado. Especificamente, no caso dos antibióticos, pode haver, até mesmo, a seleção de bactérias resistentes, fazendo com que surjam infecções ainda mais difíceis de serem tratadas, piorando, ao final, a crise de sucateamento do serviço público de saúde já mencionado.
Portanto, com vistas a combater esse hábito danoso tão comum entre os brasileiros de diversas faixas etárias, é necessário que o Ministério da Saúde, em parceria com categorias profissionais como o Conselho Federal de Medicina e de Farmácia, organize campanhas de esclarecimento e de alerta por meio da veiculação na mídia impressa, televisiva, radiofônica e social e que traga, especificamente, relatos e depoimentos de formadores de opinião, a exemplo do doutor Drauzio Varella, a partir de uma linguagem compreensível, abordando, assim, a gravidade de tomar remédio por conta própria.