Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 13/08/2020

Na ficção distópica “Admirável Mundo Novo”, do escritor Aldous Huxley, o remédio “soma” é amplamente consumido por ajudar a suportar os dissabores da realidade. Apesar da obra ter sido publicada em 1932, a ideia de um fármaco que soluciona rapidamente problemas complexos persiste no Brasil contemporâneo, posto que, devido à crise no Sistema Unificado de Saúde (SUS) em consonância às pressões da sociedade capitalista, a automedicação ainda está em debate.

É primordial ressaltar o artigo 196 da Constituição Federal de 1988, o qual postula a saúde como direito dos brasileiros e dever do Estado. Todavia, a rede pública de saúde está sucateada por falta de investimentos, o que é percebido nitidamente pelos cidadãos na ausência de profissionais e infraestrutura, bem como demora no atendimento. Esse cenário desagradável motiva as pessoas a optarem pelo uso não prescrito de medicamentos como forma de resolver o desconforto físico de um jeito que não dependa do SUS. Nesse sentido, a baixa qualidade do acesso dos indivíduos à saúde implica diretamente no abuso de paliativos, o que pode gerar intoxicação e reações adversas piorando um sistema já deteriorado.

Somado a isso está a sociedade do desempenho, como denomina o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. A ideia desse pensador é que a comunidade contemporânea é pautada na máxima produtividade e em extenuantes jornadas de trabalho, o que não permite cuidados pessoais. Nesse contexto, o corpo que realiza a atividade é contraditoriamente visto como o empecilho à performance laboral, dado que ele cansa e adoece. Portanto, no Brasil, os medicamentos funcionam como a desejada resolução capitalista para as limitações humanas. Diante disso, a automedicação, seja por paliativos acessíveis ou por remédios tarjados - como anfetaminas -, é ampla exatamente por promover o sustento físico e psíquico para suportar essa situação. A atemporalidade do livro supracitado é, assim, claramente percebida.

Destarte, é necessário mitigar o problema da automedicação. Em vista disso, Poder Legislativo deve propor um projeto de lei que impeça cortes na saúde pública e institua um valor mínimo a ser destinado ao SUS, a fim de garantir a efetividade do direito constitucional. Ademais, o Ministério da Saúde precisa se aliar às mídias de informação e aos profissionais reconhecidos, como o médico Dráuzio Varella, em uma campanha cujo objetivo seja informar - por meio de depoimentos de indivíduos que se tornaram dependentes ou que tiveram efeitos colaterais - os cidadãos sobre as consequências do uso indiscriminado de medicamentos. Assim, a noção de remédios como solução inabalável ficará para a ficção.