Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 11/08/2020

Uma temática recorrente na série de TV norte-americana Dr. House é o consumo indiscriminado e equivocado de medicamentos. Tal obra fictícia, além de expor tal realidade, aponta para consequências que a atitude pode criar, desde o atraso do diagnóstico de doenças até a contribuição para problemas clínicos mais graves. Ficção à parte, é possível ressaltar, hodiernamente, impasses relacionados à automedicação no âmbito nacional, explicados, ora pela ausência informacional de parte significativa da sociedade, ora pela existência de questões culturais enraizadas nos hábitos da população.

Em primeira análise, é necessário avaliar como a falta de informação e compreensão de problemas relacionados ao uso indiscriminado de fármacos são fatores contribuintes à problemática. Nessa perspectiva, de acordo com a visão de Hannah Arendt - expoente do pensamento político alemão do século XX -, as atrocidades da humanidade não provêm da malevolência humana, mas da falta de conhecimento e reflexão. Nesse sentido, a perspectiva é fundamental para a concepção dos meios de comunicação como ferramentas que divulgam problemas de práticas nocivas, no entanto, tal mecanismo não abrange fração significativa da população. Sendo assim, remonta-se um temor pela omissão de sintomas, atraso de diagnósticos e tratamentos e intoxicação química, fatores que põem em risco a saúde brasileira.

Outrossim, a atuação de marcas culturais está intimamente ligada à perpetuação da prática automedicante no Brasil. Nessa conjuntura, o panorama apresentado age em consonância com a visão de Jean Baudrillard em “À sombra das minorias silenciosas”: a visão de uma sociedade irracional. À luz disso, é depreensível que a automedicação - forma de alívio imediato de problemas sem acompanhamento de profissional da saúde - está intrínseca na sociedade e pode suscitar graves quadros clínicos, tal problemática, paralela à falta de fiscalização governamental, contribui para a intensificação de efeitos contrários aos pretendidos. Dessa forma, a desconstrução de costumes perpetuados na população é uma questão que exige postura proativa das instituições governamentais.

Em síntese, medidas devem ser tomadas para mitigar os impactos causados pela automedicação. Para tanto, cabe ao Ministério da Saúde, por intermédio de verbas disponibilizadas pela Receita Federal, implementar palestras com médicos, sociólogos e população no âmbito acadêmico e praças de uso comum ou mediante carros de som - em localizações cuja informação é de difícil acesso -, visando debater os efeitos da prática autoprescritiva e entraves que pode criar no equilíbrio da saúde humana. Assim, certamente se romperá com visão de Baudrillard em “À sombra das minorias silenciosas” e será mais fácil caminhar para um futuro mais absterso a todos.