Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 12/08/2020

Na premiada série “Hannibal”, o protagonista Will Graham, investigador do FBI, carrega sempre consigo um pote de aspirina para lidar com as dores de cabeça que a rotina estressante o causa. Apesar de fictício, o personagem assemelha-se aos milhões de brasileiros que fazem uso de medicamentos populares sem acompanhamento médico. Nesse tocante, é evidente a importância de se debater acerca da automedicação, prática que persiste pela abundância de propagandas de remédio irregulares e compromete a saúde da população.

Convém ressaltar, em primeiro plano, que a legislação atual permite a propaganda de remédios categorizados pelo Ministério da Saúde como paliativos, desde que haja avisos quanto aos seus excessos. A eficácia das leis que regulamentam a publicidade na indústria farmacêutica, no entanto, deixa a desejar, uma vez que influenciadores digitais e redes televisivas divulgam medicamentos milagrosos — que prometem a cura de uma infinidade de doenças — com pouca ou nenhuma repercussão jurídica. Não obstante, a indicação da busca por um médico apenas no caso de persistência dos sintomas estimula o cidadão a administrar o medicamento por conta própria, o que leva a população a crer plenamente na segurança do ato de se automedicar.

Por conseguinte, os efeitos prejudiciais de tal prática mostram-se numerosos: segundo dados da Associação Brasileira de Indústrias Farmacêuticas, a automedicação, além de causar cerca de 20 mil mortes anuais no país, dificulta o diagnóstico médico e pode agravar condições que antes seriam facilmente tratáveis, como viroses e alergias. Dessa forma, o que deveria ser um alívio rápido para problemas simples se torna uma situação de alta complexidade, capaz de infligir danos irreversíveis à saúde dos cidadãos.

Diante disso, pode-se concluir que o debate acerca da automedicação é um tema de extrema relevância no Brasil contemporâneo. Assim, cabe à Agência Nacional de Vigilância Sanitária reforçar a fiscalização da publicidade farmacêutica, de forma a explicitar os malefícios e contraindicações dos remédios anunciados e impedir a veiculação de propagandas irregulares antes que constituam um risco à coletividade. É essencial, também, que o Ministério da Saúde invista em campanhas que advirtam contra a prática da automedicação, a fim de que a população, ao evitar cair no mesmo erro que Will Graham, compreenda a importância de proteger sua saúde.