Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 13/08/2020

A Revolta da Vacina, ocorrida em 1904, evidenciou, dentre outros aspectos, a falta de conhecimento da população, a qual acreditava que as vacinas oferecidas pelo Governo prejudicariam a saúde. Nesse sentido, nota-se a persistência da ignorância brasileira perante o âmbito da higidez, haja vista que há grande recorrência de automedicação na sociedade atualmente. Dessa forma, a fragilidade do Sistema Único de Saúde e o marketing farmacêutico são fatores preponderantes para tal questão.

Em primeiro plano, é indubitável que a fragilidade do Sistema Único de Saúde têm sido um campo prolífero para a automedicação no país. Logo, segundo o artigo 196 da Constituição Federal, a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantindo mediante políticas sociais e econômicas, proteção e recuperação. Contudo, essa cláusula não se faz coerente com a realidade atual do país, já que a acentuada demanda hospitalar faz com que as pessoas se automediquem cada vez mais. Isso porque o pouco investimento destinado à saúde publica, evidenciado pelo mau funcionamento do SUS, carece de produtos médicos hospitalares, infraestrutura adequada e, muitas vezes, de profissionais. Por conseguinte, tal sucateamento hospitalar acarreta em descrédito e impaciência por parte do corpo social, fazendo com que muitas pessoas recorram ao uso de medicamento sem prescrição médica.

Por outro viés, cabe salientar que o marketing farmacêutico é um grande impulsionador do problema. Logo, tal mercadologia reproduz a dinâmica da relação de poder explicada pelo sociólogo Foucaul, visto que as associações de domínio, para ele, são exercidas a partir de seus mecanismos ideológicos e atuam como uma força que coage, disciplina e controla as pessoas. Nesse sentido, tais mecanismos disseminados pelas instituições são por ela usufruídos como método de controle dos indivíduos, alienando-os à mídia. Isso se confirma devido à concludente capacidade das propagandas em convencer o público de sua autossuficiência médica e da necessidade de determinado medicamento para o controle de diversos sintomas. Sendo assim, é inadmissível que em uma sociedade considerada globalizada, ainda perpetue atitudes que provoquem o retrocesso coletivo.

Portanto, é imprescindível que o Ministério da Saúde - instituição de alta relevância para o país - invista na infraestrutura do SUS e adquira produtos médicos hospitalares, mediante a cessão de capital público aos órgãos competentes, com o designo de convencer a população a procurar ajuda profissional antes de se automedicar. Ademais, cabe ao Poder Legislativo, por meio de empréstimos e de incentivos fiscais, elaborar um decreto que proíbam as farmácias de vender qualquer medicamento sem apresentação do receituário médico, a fim de suprimir a taxa de automedicação. Dessa forma, tais atitudes direcionarão para uma realidade comportamental preferível de uma sociedade.