Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 13/08/2020
‘‘A distância entre um remédio e um veneno está só na dosagem.’’ Essa frase de Paracelso, médico e físico suíço do século XVI, descreve, de forma bastante direta, a tênue linha que separa as duas faces que um remédio pode apresentar. Diante disso, percebe-se, nos dias atuais, no Brasil, o uso indiscriminado de medicamentos vendidos sem prescrição médica, provocando efeitos colaterais danosos ao organismo. Nesse âmbito, a problemática da automedicação mostra-se amplificada, em muito, pela influência midiática e pela falsa sensação de sabedoria.
Primeiramente, discute-se o papel potencializador da mídia em relação à utilização indevida de remédios. Segundo o filósofo francês Michel Foucault, as relações de poder são exercidas a partir de seus mecanismos ideológicos e atuam como uma força que coage, disciplina e controla as pessoas. Partindo desse pressuposto, as propagandas de fármacos, frequentemente, divulgam somente os benefícios do produto, desconsiderando as bases científicas, as quais devem incluir, além das vantagens, os fatores de risco do produto e os perigos associados à automedicação. Dessa forma, o público leigo acredita nos efeitos prometidos e, consequentemente, se automedica, ignorando, assim, as possíveis complicações, como os erros de dosagem, as reações alérgicas e a combinação química maléfica de remédios.
Em segundo lugar, destaca-se o ilusório sentimento de sabedoria como importante fator motivador alusivo ao ato de ingerir medicamentos por conta própria. Conforme Stephen Hawking, físico britânico, ‘‘O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas sim a ilusão de ter conhecimento.’’ A partir disso, inegavelmente, a falsa sensação do saber induz o indivíduo a pensar que tem condições de, por meio de determinados fármacos, promover o seu bem-estar e curar as suas doenças, mesmo sem acompanhamento especializado e sem conhecimento da real origem do problema no organismo. Nesse sentido, tal ato promove um alívio sintomático temporário, o qual pode colocar a pessoa em uma situação irreversível, pois esconde efeitos adversos e doenças muito mais graves.
Então, diante dos fatos expostos, é essencial que o Ministério das Comunicações (MiniCom) - órgão responsável pela regulação das telecomunicações - exija a exposição dos perigos da automedicação em anúncios de fármacos, por meio da criação de uma emenda, a fim de oferecer as informações adequadas para o público. Em paralelo, cabe as Secretarias de Educação, investir em programas educativos e palestras, por intermédio da aplicação de políticas públicas, objetivando alertar a população sobre as publicidades de medicamentos. Só assim, poder-se-á observar comunidades atentas à afirmação de Paracelso.