Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 13/08/2020

No romance “Alice no País das Maravilhas”, do autor inglês Lewis Carroll, a personagem Alice, em meio a diversas situações fantasiosas, decide por conta própria fazer o uso de substâncias que tem a capacidade de fazê-la mudar de tamanho com a intenção de assim atingir o seu objetivo, alcançar um coelho. Ainda que ficcional, a obra dialoga com a atual circunstância em que a sociedade do século XXI se encontra, a qual é marcada pela autonomia individual no uso de medicamentos, ou seja, a automedicação. Desse modo, percebe-se que essa problemática advém da adesão inconsequente de informações do meio virtual bem como da veiculação de propagandas de medicamentos.

De acordo com o filósofo John Dewey,” somente pensamos quando confrontamos um problema”. Nesse âmbito, tendo em vista o atual desenvolvimento tecnológico em que a coletividade está exposta diariamente, na grande maioria das vezes em que um problema precisa ser enfrentado, grande parte das pessoas utiliza o meio virtual para encontrar possíveis respostas. Entretanto, à medida que essa condição se instala, adversidades que requerem a consulta de profissionais são resolvidas por meio de dados encontrados na internet, ocasião que facilita a adesão inconsequente de informações que podem ser prejudiciais. Logo, a partir do momento que essa autonomia prevalece, por meio de pesquisas, é possível encontrar fontes que estimulam práticas de automedicação, o que na maioria das vezes é capaz de gerar consequências maléficas à saúde.

Além disso, em segunda análise, mesmo que seja permitida a veiculação de anúncios e propagandas de remédios que não requerem prescrição médica, tal realidade tem a capacidade e o objetivo de estimular a compra dessas substâncias. Diante desse panorama, ao passo que muitas medicações ganham visibilidade graças a elaboração de propagandas, o incentivo a compra desses produtos, além de fazer da saúde um bem de consumo, estimula a ingestão de medicamentos que, apesar de não requererem receita médica, podem trazer reações adversas a curto e a longo prazo. Consequentemente, sendo que o acesso a esses medicamentos é facilitado, a sua compra e uso conferem independência ao indivíduo e assim, a automedicação é viabilizada. Nessa perspectiva, torna-se necessário que o público consumidor e a grande mídia se atenham aos seus comportamentos tidos como propulsores dessa problemática. Dessa forma, cabe primeiramente ao Ministério da Educação fornecer materiais didáticos capazes de instruir os alunos das redes públicas e privadas de ensino a respeito da importância da criteriosidade no processo de adesão de informações expostas na internet, a fim de formar uma nova geração capaz de não ser influenciada negativamente pelo meio virtual. Paralelamente, é dever da indústria farmacêutica bem como dos meio de comunicação de elaborar propagandas de medicamentos que contenham, de forma explícita e coesa, informações sobre as consequências e as restrições do uso do produto em questão, com a intenção de informar e especificar cada vez mais o público alvo ao qual a propaganda se destina. Feito isso, será possível combater as causas que levam a automedicação.