Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 13/08/2020
No filme “As horas”, uma cena atipica torna evidente os perigos da automedicação em situações de problemas cotidianos. Direcionado por Stephen Daldry, a obra cita uma reflexão sobre como o sistema vigente determina as ações humanas. Baseado em eventos de 1950, o filme ainda faz jus a uma realidade que perpassa por problemas no campo da medicalização indevida e da precificação da saúde pública. Assim, relacionado a problemática, é preciso analisa-la em suas singularidades socioculturais, a fim de combate-la.
Sob esse plano, é válido ressaltar que a interface histórica da pós-modernidade colabora diretamente na questão da automedicação, da maioria, do corpo social. Isso porque, de acordo com o filósofo Byung-Chul, tais elementos culturais constroem a “Sociedade do Cansaço”, que caracteriza um modelo de vida hegemônico, entendido como estar em atividade em todo o tempo, para suprir os desejos. Em detrimento disso, parcela da população, utiliza-se de automedicamentos para a conquista de suas metas diárias e alívio de dores corriqueiras.
Cabe acrescentar que essa situação está, também, ligada à ação da Indústria Cultural no ramo da saúde, para sustentar o sistema. Isso acontece porque, de acordo com Marshall Berman, as relações de moral e ética se dissolvem em nome do lucro. Exemplos disso, no Brasil, podem ser percebidos na alta precificação da saúde de qualidade, na falta de fiscalização na venda de medicamentos prescritos e na variedade de produtos fabricados pela indústria farmacêutica. Ligado a isso, a precariedade da saúde pública fomenta a procura do autodiagnóstico por meio da internet, que é o caso de quase 40% da população.
Fica evidente, portanto, que o problema tem uma carga histórico-social mais complexa do que aparenta. Para tanto, o Estado e seus Ministérios ? do Desenvolvimento Social e da Saúde - devem promover investimentos em políticas públicas direcionadas à melhoria ao acesso de uma saúde pública de qualidade, além de fiscalizar a venda demasiada de medicamentos livres de prescrições, a fim de garantir uma sociedade saudável. Junto a isso, a Mídia deve conscientizar a população dos perigos da automedicação, por meio de ficções, com o intuito de conscientizar a comunidade de que a saúde individual é imprescindível para a construção de um corpo social pleno. Quem sabe, assim, poder-se-á vislumbrar uma sociedade que não seja a do cansaço, mas sim a da vitalidade.